Por Andréa Portolomeos
Professora de Literatura na graduação e na pós-graduação em Letras da UFLA

Quando me convidaram para escrever este artigo sobre a função da literatura na pandemia, um primeiro desafio logo me veio à cabeça: como me desprender da dicção acadêmica que me acompanha há tanto tempo? Talvez em sala de aula, ao falar sobre literatura, essa dicção se dilua frente ao olhar interrogativo dos alunos sobre questões teóricas, frente ao diálogo espontâneo a que a arte conduz, despertado pelos sentimentos individuais, originários das leituras. Sendo assim, tentarei retomar um pouco esse tom a partir do qual ensino a leitura literária nas minhas aulas sem, no entanto, fazer remissão aqui às correntes teóricas que me amparam nesse processo de ensino-aprendizagem.

Dito isso, vou tentar explicar que a função da literatura em tempos de pandemia (mas também fora desses tempos) é precisamente não ter função nenhuma e, paradoxalmente, essa é a sua mais potente serventia. Quando seleciono uma obra literária para leitura, escolho entrar num território que não corrompe nem edifica de acordo com padrões estabelecidos; ali simplesmente encontro personagens e enredos que são capazes de descortinar as minhas próprias emoções (medos, dores, preconceitos, alegrias etc), deixando-me mais consciente delas. Sendo esse processo de identificação com o texto singular e único, dificilmente vamos aprender as mesmas coisas a partir de um mesmo texto, o que o torna, então, refratário a ensinamentos ou instruções pedagógicas. Ou seja, a leitura literária, no seu sentido mais pleno, é uma das experiências mais solitárias que existem e, assim, a obra mais aponta para as nossas diferenças uns em relação aos outros que para nossas semelhanças. Tentando explicar de outro modo, quando digo que a literatura não tem função pré-determinada, estou dizendo também que esse é seguramente um dos territórios mais livres para você existir, exercitar sua subjetividade. É importante esclarecer que existir através da realização do seu imaginário não significa escapismo da realidade empírica, pois o imaginário – através do ato de leitura – pode estimular uma reorganização de seus sentimentos, favorecendo inclusive a consciência sobre emoções que ainda não tinham sido acessadas por você, mas que sempre estiveram latentes na sua atuação no mundo.

Sei que o processo de enfrentamento e leitura do texto literário implica hoje, em pleno século XXI, um grande esforço, tendo em vista o fato de pertencermos a um contexto histórico marcado pela onipresença de imagens audiovisuais que, na maioria das vezes, incitam um comportamento padronizado de consumo. É claro que podemos pensar mais dialeticamente sobre a potência da imagem, para além de seu consumo rápido, mas esse não é o foco deste texto. Win Wenders, aclamado diretor alemão de cinema que completou 75 anos em agosto deste ano, explorou a paradoxal dificuldade de comunicação entre pessoas neste contexto cada vez mais tecnológico que, em tese, tornaria-nos mais próximos uns dos outros. Seu depoimento no belíssimo documentário “Janela da Alma”, de 2001, com direção e roteiro de João Jardim e Walter Carvalho, problematiza a grande maioria das imagens que nos cercam cotidianamente como imagens que não tentam dar um sentido a algo, mas vender algo. Em caminho oposto, segundo Wenders, está uma das necessidades mais fundamentais do ser humano, que é o desejo de que as coisas comuniquem algo, o que explicaria em parte nosso prazer desde crianças em ouvir histórias. Assim, as narrativas literárias nos confortam à medida que sua estrutura - que aciona nosso imaginário e nossas emoções na coprodução ou leitura do texto – ajuda-nos a criar sentidos para as nossas próprias vidas.

Mesmo quando as imagens que cotidianamente nos cercam pretendem comunicar sentidos, a superabundância delas também parece torná-las inócuas no processo de fortalecimento de nossas subjetividades, de autoconhecimento, de conhecimento sobre a vida. Assim, o excesso gerado pela comunicação virtual na pandemia - podemos pensar, por exemplo, no excesso de lives sobre todos os temas que chegam às nossas casas diariamente, em todos os horários – mais nos informa (quando muito) do que produz reflexões sobre inúmeros e diferentes temas. Então, talvez essa seja uma realidade que mais nos angustia pela impossibilidade de uma efetiva interação ou comunicação que ameniza nossas solidões no isolamento social. Dizendo de outra maneira, a superabundância de estímulos através de imagens veiculadas pela internet, às quais estamos muito atrelados especialmente no contexto da pandemia, pode favorecer um maior distanciamento entre nós, na medida em que a demasia é um obstáculo para uma comunicação satisfatória, pois definitivamente não conseguimos prestar atenção e processar um enorme volume de informação num curto espaço de tempo.

 Ainda sobre esse excesso no contexto audiovisual, Wenders observa que já não somos capazes de ver e nos emocionar com histórias simples num universo de “efeitos de choque” a cada dia mais editados nas imagens. Isso significa que as pequenas coisas do dia a dia tendem a nos dizer muito pouco ou nada hoje em dia; em geral, as histórias e as vidas ordinárias de nossos semelhantes nos emocionam muito pouco ou quase nada. Desse modo, infelizmente não creio que saiamos de uma experiência bastante imersiva na internet, ao longo da dura experiência da pandemia, seres humanos mais sensíveis para a realidade alheia e mais atentos às nossas próprias emoções. Embora tenhamos acesso a tanta informação nestes tempos, o exercício da nossa subjetividade me parece muito comprometido, abatido por uma sensação de impotência.

Não se trata aqui de uma ingênua defesa da leitura literária em detrimento das inúmeras interações que fazemos na internet, mas de problematizar o excesso de conteúdo audiovisual como produtor de conhecimento sobre a vida e sobre o mundo; de discutir a internet como único lugar de refúgio em tempos de pandemia; de pensar o texto literário, as emoções experimentadas com maior liberdade no ato de leitura, como uma interessante via de acesso a nós mesmos para o enfrentamento de nossas solidões. Como diz Alberto Caeiro no poema XXIV de “O guardador de rebanhos”, isso de reconhecer os sentimentos como via legítima de acesso ao conhecimento “exige um estudo profundo”, “uma aprendizagem de desaprender” sobre o legado da razão em nossa sociedade. Então me parece que nestes tempos tão difíceis, a literatura pode nos ensinar sobre o que não somos mais capazes de ver, bombardeados que estamos pelo excesso. Ela pode nos ensinar que “O essencial é saber ver/ Saber ver sem estar a pensar/ Saber ver quando se vê/ E nem pensar quando se vê/ Nem ver quando se pensa”.

 

Os conteúdos e opiniões apresentados nos artigos desta seção são de responsabilidade exclusiva de seus autores, não correspondem à posição institucional da UFLA. As informações, as fotos e os textos podem ser usados e reproduzidos, integral ou parcialmente, desde que a fonte seja devidamente citada e que não haja alteração de sentido em seu conteúdo.

 Fabricio Pelloso Piurcosky

Cristina Lelis Leal Calegario

Doutor e docente do Departamento de Administração e Economia


Se pedissem que explicasse a alguém sobre a situação do ensino superior brasileiro, em especial do ensino privado, o que falaria?

Com certeza, a resposta abordaria que, dada a importância da educação superior na formação de profissionais e pesquisadores científicos - que possam melhorar a qualidade de vida das pessoas e do nível de desenvolvimento do país -, este setor não tem recebido a atenção necessária em termos de recursos e políticas adequadas para oferecer o acesso a todos. E que, como as instituições de ensino públicas não são suficientes para atender aos estudantes do País, egressos do ensino médio, as privadas procuram cumprir seu papel na formação profissional daqueles que não tiveram oportunidade de ingressar nas públicas.

Mas, imagine que você seja confrontado com a seguinte informação: no Brasil, entre 2001 e 2019, ocorreram mais de 170 processos de fusões e aquisições (F&A) que envolveram o ensino superior privado. Além disso, esses eventos envolveram fundos e empresas estrangeiras. Qual seria o seu posicionamento sobre isso?

A ideia deste texto não é somente dar informações para que você responda à questão inicial, mas compartilhar conhecimento para que existam mais indagações e reflexões sobre os rumos desse setor tão importante.

Dados da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO, 2017) indicam , o número de estudantes no ensino superior cresceu de 65 milhões, em 1991, para 79 milhões, em 2000, e para 207 milhões, em 2017. Todo esse potencial de crescimento, assim como o dinamismo do cenário mundial, fez com que o setor de ensino superior privado e suas estratégias de atuação fossem objeto de reflexão na maioria dos países desenvolvidos.

No Brasil, ao analisar os processos de F&A nos anos de 2010, 2011, 2013 e 2014, verificou-se que o volume de negócios ficou sempre acima de R$ 2 bilhões (CM, 2017). E que é possível perceber que os grupos educacionais brasileiros que receberam investimento estrangeiro mudaram seu comportamento e posicionamento no mercado, pois começaram a atuar até mesmo com capital aberto na bolsa de valores.

Com esse movimento atípico, algumas questões começam a aparecer, como, por exemplo: será que o setor de ensino superior privado ficará “nas mãos” de algumas empresas, formando com isso um mercado concentrado? Qual o nível de eficiência relativa dos grupos educacionais que têm recebido investimentos estrangeiros?

Foi possível responder essas perguntas e outras mais específicas com a pesquisa de doutorado desenvolvida no Departamento de Administração e Economia da UFLA, intitulada, “A Participação do Investimento Estrangeiro na Reestruturação do Setor de Ensino: Uma análise da eficiência relativa de instituições de ensino superior privadas no Brasil”.  O cálculo do grau de concentração do mercado foi realizado considerando dois tipos: o mercado de graduação (presencial e a distância) e o mercado de graduação a distância (pois foi visto que este é o que tem recebido mais atenção e que teve sua legislação mais alterada nos últimos anos). Assim, embora o mercado de graduação não esteja concentrado, foi percebido um aumento entre os anos de 2014 e 2017, o que determina que ele ruma para uma concentração. Diferentemente do que acontece com mercado de graduação a distância, que apresenta uma concentração moderada.

Para verificar o nível de eficiência das instituições privadas que receberam capital estrangeiro, foram mensurados os níveis de eficiência relativa que variam de 0 a 1, de cinquenta e cinco instituições de ensino superior (IES) que em algum momento entre 2014 e 2017 receberam capital estrangeiro. Nenhuma delas apresentou o nível de eficiência igual a 1 para os quatro anos estudados.

Analisando a decomposição do índice em nível quantitativo (a razão entre o custo total e o número total de alunos), verificou-se que, sete IES atingiram o nível de eficiência igual a 1. Os indicadores considerados influenciadores ou determinantes desse nível quantitativo foram: o total de alunos por total de docentes (diminuição do custo de operação com o aumento dos alunos que geram receitas e menos professores para diminuir despesas), entrada de capital estrangeiro (com mais recursos, a tendência é aumentar o número de alunos, pois há possibilidade de compra de outras IES e investimentos) e aumento do número de professores doutores (o custo envolvido na contratação de professor com nível de doutorado é compensado com o aumento do número de alunos).

No nível qualitativo (a razão entre o custo total e o índice geral de cursos), cinco IES atingiram o nível de eficiência igual a 1. O indicador que influenciou o resultado positivamente foi o total de doutores por total de docentes. Isso significa que um corpo docente mais qualificado contribui para o crescimento qualitativo das IES.

Ademais, ainda foi percebido que o nível de eficiência quantitativo é mais preponderante para o nível de eficiência das IES. Dessa forma, é possível responder com ainda mais propriedade as perguntas que foram feitas no início deste texto.

Alguém poderia dizer que o ensino superior privado no Brasil passou por uma reestruturação, a partir da entrada de capital estrangeiro. Isso provocou uma concentração de mercado na graduação a distância e uma concentração em andamento para o ensino presencial. Essas empresas do setor de educação buscam a eficiência (com tendência para a operacionalidade da empresa e diminuição de custos), amparadas mais em seus indicadores quantitativos do que nos qualitativos.

 Portanto, seria muito importante que as autoridades públicas que regulam esse setor propusessem novos formatos de exigências que privilegiassem mais a busca pela eficiência qualitativa, de modo a cumprir o importante papel da educação: mudar a realidade das pessoas e, consequentemente, a do país.   

   

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Por Ana Clara Toledo, Daniela Meirelles Andrade, Alaís Oliveira Pila, Gabrielly Fernandes Ribeiro e Sara Aparecida Marques Silva

Integrantes do projeto Empreendedorismo na Escola, do Departamento de Administração e Economia (DAE)

Considerando o cenário público brasileiro de educação, mais especificamente o modificado pela pandemia da COVID 19, questiona-se: é possível realizar uma transformação a fim de renovar as forças do sistema de ensino público? Para muitos, a resposta a essa questão pode ser negativa, pois eles veem tal transformação como uma utopia, como um estado muito longínquo da realidade atual, haja vista os entraves já desgastados no imaginário coletivo. Contudo, tal inquietação pode ser refletida nos conceitos que envolvem o empreendedorismo, a inovação e a educação, os quais abrem novas possibilidades metodológicas de ensino e aprendizagem, com o propósito de renovar as raízes educacionais e plantar um novo sentimento, que deve ser guiado pelo bem comum, com foco na união de forças para transformar a educação e torná-la mais cidadã, humana, empática e autônoma, a fim de gerar o crescimento pessoal e coletivo dos estudantes, bem como o dos docentes e do corpo administrativo das escolas.

O contexto atual, ou seja, o cenário público brasileiro de educação encontra-se carente, sucateado e limitado, principalmente no que concerne à infraestrutura das escolas, ao orçamento público, à formação dos docente e às diferentes realidades locais. De fato, não é um mundo cor-de-rosa, no qual as pessoas estão motivadas por si só a mudarem suas realidades. Pelo contrário, existe um estigma tradicional em cultuar tal recorte descrito acima. Mas o pensamento transformador não vê isso como uma derrota: esse é o desafio e a força! Construir coletivamente novas realidades para milhares de crianças, jovens e adultos e, aos poucos, como quem engatinha para aprender a andar, criar um universo educacional transformador que altere as estruturas da escola, do ensino e da aprendizagem.

 Nossa vivência no projeto de extensão Empreendedorismo na Escola envolve discentes de graduação do curso de Administração Pública da Universidade Federal de Lavras e por alunos e alunas entre 13 e 18 anos, do nono ano do ensino fundamental II, de uma escola da rede pública municipal de Lavras. Nossa realidade é composta, diariamente, por desafios sociais, motivacionais e didáticos como, por exemplo, “como lidar com realidades tão distintas e convergir as atenções para os conteúdos das aulas? ”, “como motivar os alunos pela busca de conhecimentos e aprendizados? ”, “que metodologia usar para que o processo de ensino seja efetivo? ”. A verdade é que não existem respostas objetivas para tais indagações - a realidade não é uma prova de múltipla escolha, com prazo curto e exigência de nota alta -
mas há ideias e ações coletivas que visam a solucionar tais problemas.

Dessa forma, no projeto buscamos maneiras de vencer esses desafios. Partimos do pressuposto de que para um aluno e aluna compreenderem o conteúdo de uma aula, é necessário que a temática esteja correlacionada à sua realidade. Isto é, precisamos contextualizar com exemplos do cotidiano deles para que se sintam imersos, confortáveis e instigados a pensarem sobre suas vidas e, então, compreenderem o desenvolvimento da temática da aula. Além disso, dialogamos com os estudantes em uma relação horizontal, mostrando que ambas as partes – professores e alunos- estão ali para aprenderem e construírem o conhecimento juntos. Tal ação busca motivar alunos e alunas a exporem suas ideias e opiniões e a participarem da aula. Por último, mas não menos importante, nos dedicamos a desenvolver metodologias ativas dentro da sala de aula. Utilizamos jogos, filmes, trabalhos em grupo, gincana na quadra poliesportiva, entre outros. Em função da pandemia, desenvolvemos materiais para serem divulgados em nossas redes sociais e estamos buscando inserir novas práticas para continuarmos a instigar uma formação integral. Tudo isso é fundamental para estimular a ação autônoma dos alunos e das alunas e, também, para convidá-los a participar do desenvolvimento da aula.

Assim, nossa proposta é levar aos estudantes do ensino fundamental II novas perspectivas sobre oportunidade, empreendedorismo, empregabilidade e vivência social. Alguns dos temas das aulas são: história do empreendedorismo, características do empreendedor, empreendedorismo social, público, privado e intraempreendedorismo, cidadania e participação social, modelo de negócios etc.

Em nosso projeto, nos espelhamos nas escolas transformadoras, buscando desconstruir o sentimento de exclusão que as escolas tradicionais produzem via rigidez de padrões, regras e impessoalidade nas relações, e passando a construir espaços de vozes abertos às opiniões, ideias, criatividade e diálogo, em que todos podem contribuir para a evolução social. Viver esse projeto dentro das salas de aulas fez com que nós crescêssemos como pessoas, pois nos mostrou a importância que têm o docente, os estudantes, o corpo administrativo da escola na formação conjunta cidadã e humana de cada um daqueles jovens.

A vida dos alunos e das alunas vai muito além de chegar à escola às sete da manhã com sono e sair às onze para o almoço: eles possuem vidas, sonhos, problemas, medos, opiniões e sentimentos. Todos fazem parte do mundo e devem ser olhados e compreendidos- e não apenas vistos! -, para que cada ação seja percebida, cada conversa seja respeitosa, cada nuance seja observada e, assim, ocorra a transformação.

É necessário voltar ao início, quando os caminhos se confundem, isto é, é preciso reconstruir e transformar a educação brasileira pública com base nos pilares da cidadania, da formação intelectual e humana e do pensamento crítico e coletivo, convergindo as forças daqueles que almejam tal mudança e criando espaços de debate sobre a mudança de realidade. O caminho é longo e trabalhoso, mas para construí-lo, como já dizia Drummond sobre o sentimento do mundo, temos que ter em mente que “O presente é tão grande, não nos afastemos. Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas! ”

 

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Por Paulo Ricardo da Silva

Professor do Departamento de Química (DQI)

Muitas pessoas já devem ter se questionado (uma, duas, três ou várias vezes) o motivo de estudar Ciências, por várias questões: a Ciência é difícil, é para nerds, possui muitas fórmulas, exige muita “decoreba”, não tem uso ou aplicação no dia a dia, enfim, podemos elencar uma série de motivos contrários ou negativos. Adicionalmente, somos bombardeados com informações publicadas nas mais diversas plataformas de comunicação, que evidenciam aspectos no mínimo controversos, muitas vezes negativos ligados à Ciência ou a quem atua profissionalmente nessa área. Quem não se lembra de Walter White, químico e professor de Química da série Breaking Bad, que, com seu conhecimento, enriqueceu, provocou tantas mortes e danos à sociedade à custa da produção e comercialização de metanfetamina? Ou então dos desenhos Dexter e Pink e Cérebro?

Ao contrário do que muitos pensam, para ser cientista não é necessário ser uma pessoa de idade avançada. Óculos e jaleco não são objetos que nos acompanham 24 horas por dia. Somos pessoas iguais às demais, frequentamos supermercados, shoppings, academias, praticamos esportes... O que nos diferencia é o campo de estudo e de trabalho que escolhemos para atuar como profissionais, assim como qualquer outra profissão que possui suas características e importância. Apesar dos vários aspectos negativos ou equivocados divulgados a respeito da Ciência que podem, inclusive, gerar os questionamentos citados no início desse texto, a Ciência deve ser compreendida para além de “uma vilã para a sociedade”.

Vamos analisar o caso da bomba atômica. A primeira impressão que muitas pessoas constroem geralmente é “A Ciência é ruim, olha o que uma bomba atômica causa de estragos no mundo”. Porém, na maioria das vezes, não temos a oportunidade de discutir, por exemplo, questões como: a Ciência foi a responsável pelo lançamento das bombas atômicas e pelos diversos estragos por elas causados? Quem tomou a decisão de lançar as bombas atômicas? Qual o conhecimento envolvido na produção de uma bomba atômica? Avaliando essa última questão, podemos dizer, de forma simplificada, que a bomba atômica diz respeito ao conhecimento e controle da produção de energia nuclear (aquela que é gerada a partir de processos de fissão - quebra - ou fusão de núcleos atômicos). Esse mesmo conhecimento é empregado em usinas termonucleares, que convertem energia nuclear e energia elétrica, podendo abastecer nossas casas, por exemplo; ou então em alimentos, para matar possíveis microrganismos neles, deixando-os mais adequados para nosso consumo. O que eu quero defender é a ideia de que a Ciência não é necessariamente ruim, ou sempre resolverá todos os nossos problemas assim que eles surgem; o (bom ou mau) uso do conhecimento científico é influenciado pelas pessoas que têm acesso a esse conhecimento. Por isso é importante divulgar e difundir os conhecimentos produzidos na Universidade para a sociedade, para que mais pessoas tenham a chance de entender melhor o que acontece e se posicionar.

Tomemos o exemplo da Química: essa Ciência é uma forma de olhar para o mundo e de explicar várias coisas ao nosso redor, por meio de uma linguagem própria (quem sabe o que significa H2O?), métodos próprios, usando teorias e abstrações, ou seja, aquilo que não conseguimos acessar com nossos sentidos. Além disso, todo esse conhecimento acumulado e associado a outras Ciências permite-nos fazer previsões, antecipações e manipulações com o que nos cerca.

Aprender Química é mais do que somente aprender conceitos químicos, como os elementos da Tabela Periódica, ou fazer cálculos de concentração de soluções, é mergulhar em uma nova cultura, em novas formas de compreensão e explicação de nosso mundo. Também abre possibilidades para atuarmos em condições plenas de cidadania, podendo opinar de forma coerente em assuntos de interesse público e que envolvam a Ciência; diz respeito também à tomada de decisões mais bem fundamentadas que afetam diretamente nossas vidas e de outras pessoas; permite ir ao mercado e comparar produtos não somente pelo preço, mas também por sua composição; aprender Química (e Ciência) permite ligar o "desconfiômetro" ao receber vídeos no whatsapp com curas milagrosas...

Portanto, é importante divulgar e difundir a Ciência para a população, mostrando que ela é um empreendimento humano, necessita de tempo, investimentos e, principalmente, é uma maneira de auxiliar o desenvolvimento de uma sociedade, tanto individual como coletivamente.

 

Os conteúdos e opiniões apresentados nos artigos desta seção são de responsabilidade exclusiva de seus autores, não correspondem à posição institucional da UFLA. As informações, as fotos e os textos podem ser usados e reproduzidos, integral ou parcialmente, desde que a fonte seja devidamente citada e que não haja alteração de sentido em seu conteúdo. 

Por Gilmar Tavares

Professor Titular aposentado e extensionista voluntário do Departamento de Engenharia Agrícola da UFLA (DEA/UFLA)

 

Todos nos círculos universitários e em seu entorno já ouviram dizer ou leram e, às vezes, até mesmo reafirmaram, principalmente nas cerimônias acadêmicas oficiais, que a Universidade se apoia em três pilares fundamentais: Ensino- Pesquisa – Extensão. Mas na prática, ou seja, no cotidiano acadêmico em tempo real, tem sido assim mesmo? Será?!

Embora, atualmente, esse triunvirato tenha finalmente ganhado força, na verdade é conveniente lembrar que por muitos anos anteriores, a Extensão foi quase que relegada a terceiro plano. Quantas e quantas vezes ouvia-se dizer que: “Extensão é coisa de bicho-grilo”!! “Extensão é coisa de esquerdista”!! “Extensão é atividade de quem não quer fazer nada”!!

Até mesmo as progressões funcionais de carreira no magistério superior eram extremamente difíceis para os professores extensionistas. As atividades extensionistas quase não valiam pontos, quando comparadas ao ensino e principalmente à pesquisa. Não valia a pena ser Professor Extensionista. Absolutamente desestimulante.

Na apresentação do livro “ Validação Científica e Viés Extensionista” (Novas Edições Acadêmicas-2017), livro esse que editei e publiquei às minhas próprias expensas, para provar a viabilidade de minha tese de conectar trabalhos científicos com viés extensionista na mesma publicação, escrevi o seguinte:

Por quase quarenta anos de ensino, no magistério superior do Departamento de Engenharia da Universidade Federal de Lavras, defendi a proposta de indexação do viés extensionista aos trabalhos científicos de pesquisa em geral, dissertações de mestrado, tese de doutorado e, também, aos programas de orientação acadêmica, em nível de graduação.

Isto porque, neste considerável tempo de serviço como professor universitário, dediquei-me paralelamente, também, de corpo e alma, à

Extensão Universitária Inovadora, especialmente à Agroecologia e à Agricultura Familiar, em suas correlações econômicas, socioambientais e culturais, onde buscávamos transformar pesquisas científicas em tecnologias aplicadas, o que demandava intensas pesquisas pelos artigos científicos e as constantes constatações das dificuldades de interpretação da maioria destes mesmos artigos, normalmente escritos para serem entendidos apenas pela seleta comunidade acadêmica, alijando as pessoas comuns de seus benefícios. 

Sentimo-nos fortalecidos por estas constatações, quando, em 27/07/2003, Marcelo Leite, Editor de Ciências da Folha de São Paulo, publicou em seu jornal, o artigo: “A Chatice da prosa científica”.

John E. Sulston, ganhador do Prêmio Nobel de Medicina em 2002, já dizia que “a Ciência precisa atingir os mais pobres”.

A universidade brasileira ainda é extremamente corporativa. É preciso que ela se abra mais para a sociedade”. Afirmava para a Folha de São Paulo, em 07/01/2003 o conceituado Prof. da UFPR, Carlos Roberto A. dos Santos.

O papel que a ciência tem para melhorar o Brasil não está sendo propagado.” Afirmava para o mesmo jornal em 17/05/2003, o filósofo Renato Janine Ribeiro, em disputa da presidência da SBPC. 

Para atender a estas demandas, e fazer com que a ciência também contemple os sonhos de Brecht, “única finalidade da ciência é aliviar o sofrimento da existência”,em nossa visão, o caminho sempre foi indexar o viés extensionista aos trabalhos científicos”.

 

Atualmente, felizmente e finalmente, a Extensão começa a ocupar o local de pilar fundamental, junto ao Ensino e Pesquisa. As coisas começaram a mudar verdadeiramente quando, em 2007, o governo federal determinou, ordenou, mandou o CNPq financiar projetos exclusivamente de extensão.

Foi uma dura batalha de convencimento, uma queda de braço brutal  entre os “cardeais da pesquisa” e os “sonhadores da extensão”. Diziam que não havia dinheiro para esta aventura. Que o CNPq baixaria o seu nível.  Extensão no CNPq, nunca, jamais. Que diriam do CNPq?

Então, o governo federal da época aportou uma verba do MDA (Ministério do Desenvolvimento Agrário) no CNPq e destinou-a exclusivamente para projetos 100% extensionistas. Foram aprovados um pequeno número de projetos para adequar-se à pequena verba aportada. Eu tive a felicidade de ser contemplado e aprovei o Projeto CNPq Edital 36/2007, “Propostas para Apoio a Projetos de Extensão com Tecnologia Inovadora para Agricultura Familiar” que denominei: Projeto Carrancas.

Mais tarde, tive a felicidade de participar das avaliações dos resultados de todos os projetos deste edital histórico e constatar o sucesso de todos. O primeiro edital CNPq Extensão (36/2007) tinha sido uma retumbante vitória da Extensão Universitária Inovadora. Nunca perco a oportunidade de lembrar a todos que Extensão Universitária Inovadora não é assistência técnica em geral.

Nos anos seguintes, aprovei mais vários projetos extensionistas, uma vez que o CNPq tinha adotado definitivamente a Extensão Universitária Inovadora como política de instituição, criando um espaço definitivo e orçamento específico  para essa finalidade, inclusive ofertando bolsas e incentivos para professores e estudantes extensionistas, como é até hoje, felizmente. Parecia um sonho, mas era realidade.

Na verdade, aqui na UFLA, meu discurso e defesa pró-viés extensionista autêntico começou na ESAL em 1977 e foi se repetindo obstinadamente ao longo da UFLA, e eu tenho a pretensão de afirmar um feito inédito na Universidade brasileira, ou seja, em 1998 consegui a promoção para Professor Titular, graças à Extensão Universitária e, em 2014, quando me aposentei, feliz, apresentei ao CPPD uma centena de projetos extensionistas realizados.

Atualmente, sou Professor Titular aposentado e extensionista voluntário do Departamento de Engenharia Agrícola (DEA) da UFLA e continuo fazendo Extensão Universitária Inovadora com Agroecologia e Agricultura Familiar em Programas de Segurança Alimentar Sustentáveis.

O meu mais recente projeto aborda a Biofertilização, em uma parceria extensionista participativa com o pesquisador Dr. Thomas Mondjalis Poto do INERA (Institut National pour l'Etude et la Recherche Agronomiques) de Kinshasa / Gombe,República Democrática do Congo. Os resultados com Validação Cientifica deste projeto inovador constam no Boletim Técnico nº112 (FEV/2020) da Editora UFLA e o Viés Extensionista está disponibilizado no Repositório Institucional da Biblioteca da UFLA, no espaço: http://repositorio.ufla.br/jspui/handle/1/42286, nos idiomas nativos africanos: swhaili, lingala e kikongo, acompanhados das versões em inglês e francês. Neste mesmo site, estão disponibilizados também mais trabalhos correlatos às tecnologias socioambientais sustentáveis da Agroecologia.

 

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Plataforma de busca disponibilizada pela PRP para localizar grupos de pesquisa, pesquisadores, projetos e linhas de pesquisa da UFLA