Por Gilmar Tavares
Professor Titular aposentado e extensionista voluntário do Departamento de Engenharia Agrícola da UFLA (DEA/UFLA)


Em 1978, o Brasil e o mundo vivenciavam uma crise sem precedentes na história do comércio internacional de petróleo. Crise essa iniciada em 1973, com o embargo promovido pelos países árabes produtores de petróleo, que estavam em feroz guerra contra Israel, no Oriente Médio.

A consequente escassez dos combustíveis provocava a prática de preços exorbitantes nos postos de gasolina; preços que, para os importadores de petróleo, saltaram instantaneamente de 3 para 12 dólares o barril, com viés de alta. Para piorar, em 1979, ocorreu a revolução iraniana e, então, o preço do petróleo disparou para 39,50 dólares o barril, com manutenção do viés de alta.

Em 1980, a guerra Irã/Iraque agravou a situação, e todos os países que dependiam da importação de petróleo desencadearam uma busca frenética e urgente por formas alternativas de energia, quando aumentaram, concomitantemente, as pressões por tecnologias que não fossem tão poluentes.

O Brasil, que já tinha criado o "Pró-Álcool" em 1975, revigorou essa proposta com a possibilidade dos carros flex; porém, eram necessárias muitas outras ações para enfrentamento da gigantesca crise.

Pela primeira vez nos noticiários, apareceram sistematicamente os termos "sustentabilidade" e "energia limpa", para regozijo dos pré-socioambientalistas como eu, e a palavra "poluição ambiental" passaria finalmente a frequentar os recém-nascidos diálogos socioambientalistas.

Até então, falar de energia solar, energia eólica, biocombustíveis e outras alternativas energéticas era considerado, pelo status-quo, coisa de visionários desocupados, uma vez que as reservas mundiais de petróleo eram estimadas para durarem mais de 1000 anos e a "preço de banana", ou muito menos. 

Importante lembrar que, nessa época, o Brasil já era grande importador de petróleo, e a Petrobras era considerada pelos técnicos e economistas retrógrados do mercado, incapaz de tornar o Brasil um forte e auto suficiente produtor mundial, dadas as condições geológicas do País e do tipo tupiniquim de petróleo. Felizmente, estavam errados e a Petrobras, hoje, é um dos orgulhos da nação.

Mas, no Brasil, em 1978, a situação só se agravava e, por decisão do Presidente da República, foi criada a "Comissão Nacional de Energia", a ser presidida pelo vice-presidente, engenheiro Aureliano Chaves de Mendonça, para propor urgentemente, alternativas à crise energética nacional.

Imediatamente e de maneira pioneira, a ESAL, hoje UFLA, criou sua própria comissão institucional, "Comissão de Energia da ESAL", para apoiar e fazer propostas à Comissão Nacional de Energia, e o professor Hélio Correa (DAG – ESAL/UFLA) foi designado presidente. Eu, por ser engenheiro mecânico e professor no Departamento de Engenharia (DEG, atualmente Departamento de Engenharia Agrícola-DEA), fui convidado para participar do subgrupo “Estudos, viabilidades e utilização de formas alternativas de energia”, para a substituição da energia oriunda de fontes fósseis, finalmente entendidas como poluentes também.

Minha primeira missão foi estagiar na UFPB (1979), campus de João Pessoa, (Laboratório Energia Solar), sob a orientação do professor Cleantho da Câmara Torres, naquele momento a maior autoridade brasileira no assunto, precursor do desenvolvimento dos estudos de energia solar e eólica no Brasil e presidente da "Associação Brasileira de Energia Solar". Foi uma experiência maravilhosa e eu me apaixonei intensamente pelas energias alternativas e suas evidentes possibilidades econômico/socioambientais, uma vez que, já naquela época, me envolvia com as questões socioambientalistas preservacionistas.

Ao retornar a Lavras, promovi inúmeros seminários no câmpus da ESAL/UFLA, para divulgar as formas alternativas de energia, especialmente a energia solar e a energia eólica. Um desses seminários, registre-se, foi com apoio oficial do Projeto Rondon.

Registre-se também que, ainda em 1979, eu consegui trazer o professor Cleantho à ESAL/UFLA e, junto com um grupo de estudantes do curso de graduação em Engenharia Agrícola da ESAL, criamos o "Grupo de Energia Solar da ESAL". Até uma pequena sala nos foi disponibilizada.

O professor Cleantho proferiu uma palestra para toda a comunidade, com o tema: "Perspectivas para Energia Solar no Brasil". O evento foi um grande sucesso de temática e de público, contudo, e efetivamente, consegui apenas alguns poucos simpatizantes para o propósito inovador que motivara o evento.

Aconteceu que, curiosamente, as pessoas em geral acharam tudo muito bonito e interessante, porém, não deram a mínima importância para a temática e diziam que, quando os conflitos no Oriente Médio cessassem, as "novidades energéticas" seriam irremediavelmente esquecidas. A bem da justiça, lembro que os conflitos não terminaram até hoje e que as tais novidades energéticas tomaram uma dimensão incalculável, ao iniciarem a histórica inserção da ESAL/UFLA no contexto mundial de energia alternativa, num trabalho conjunto e participativo de muitas mãos. Mas este foi o primeiro passo, e afirmo isso com absoluta certeza!!

Professor Gilmar Tavares e o fogão solar construído em 1979
Professor Gilmar Tavares e o fogão solar construído em 1979

Porém, uma das minhas maiores, corajosas e detratadas ações foi mesmo meu "Fogão Solar" (foto 2), porque naquela época eu dispunha de poucos recursos técnicos e nenhum recurso financeiro para convencer as pessoas de que a energia alternativa não era uma bravata. Construí, então, um "Fogão Solar Experimental" e organizei o "I Seminário de Energia Alternativa da ESAL (1979)", para apresentar o fogão e tentar divulgar os potenciais da energia alternativa, mais uma vez.

Incrível!! Esse Fogão Solar Experimental foi construído artesanalmente com madeira compensada e folhas de papel alumínio

(Gratidão!! in-memoriam, ao saudoso funcionário Sr. Bené, que me ajudou pacientemente neste arriscado projeto).

O fogão foi um estrondoso sucesso e eu cheguei a receber visitas de escolares locais que queriam atestar "se o Fogão Solar do Professor funcionava mesmo!!!". Funcionou sim!! Sempre funcionou!!! E está disponibilizado na minha sala no DEA/UFLA até hoje (já são passados mais de 40 anos!!), para quem quiser verificar se funciona mesmo. Mas, por favor, lembrem-se de que o Fogão Solar precisa de sol para funcionar, assim como o fogão a gás necessita de gás, né??!!

Espero que o Museu do Câmpus aceite meu Fogão Solar em seu acervo, como marco histórico do início dos estudos e evolução para o desenvolvimento e aproveitamento das formas alternativas de energia na ESAL/UFLA. Está feita a oferta!!

Naquele mesmo evento, apresentei, também, a famosa, folclórica e histórica "Rural Willys do Sr. João Van Den Berg", que era um antigo veículo Rural Willys adaptado engenhosamente pelo proprietário para ser movido exclusivamente a gás de carvão, e que transitava por Lavras e região despertando enorme espanto das pessoas, devido ao gaseificador imenso que tinha sido adaptado na traseira do veículo (parecia mesmo uma churrasqueira a carvão dependurada!!). Foi o primeiro veículo movido 100% a gás de que tomamos conhecimento. Vaticinei, então, naquele momento, que o gás seria mais um combustível alternativo para veículos automotores, num futuro bem próximo. GNV, bingo!!!

Registre-se também que, em 1982, apresentei ao Programa CNPq/FINEP, (CNPq ainda Conselho Nacional de Pesquisa), um projeto denominado "Avaliação do Potencial Solar da Região de Lavras" em que pretendia desenvolver um protótipo de aquecedor de água por energia solar. Curiosamente, o projeto foi aprovado, porém não financiado por falta de verbas próprias.


Mesmo assim, ainda em 1982, eu consegui construir com folhas de zinco e instalar experimentalmente, não só esse protótipo pioneiro, mas também um protótipo pioneiro de boiler (reservatório de água aquecida no aquecedor solar), na Fundação Municipal São João del Rei (foto 1), que em 1986 transformou-se em Funrei (Universidade Federal), onde lecionei no curso de Engenharia Mecânica, à noite, de 1978 a 1983. 

( Gratidão!! in-memoriam, ao Diretor/ENG, Prof. Gilberto e ao Superintendente/FMSdR, Sr. Júlio.).

Mas somente em 1998, 17 anos após o Fogão Solar e inúmeros seminários e palestras nesse intervalo de tempo, que eu conseguiria uma vitória sem precedentes na história do desenvolvimento da energia alternativa da ESAL/UFLA. Naquele ano, após muita luta de convencimento, consegui finalmente implantar o "Curso de Especialização Lato Sensu a Distância Fontes Alternativas de Energia - FAE", idealizado em 1997 e que, em 2002, passaria a ser denominado "Formas Alternativas de Energia - FAE", para congregar os estudos teóricos, práticos e aplicados de:

Energia Solar; Energia Eólica; Biogás; Biocombustíveis; Gaseificação da Madeira; Micro Centrais Hidroelétricas; Carneiro Hidráulico e Roda D'água; Aproveitamento Energético do Lixo Urbano e de Resíduos Industriais e Célula a Combustível

Solicito que observem a ousadia de propor Micro Centrais Hidroelétricas, Carneiro Hidráulico e Roda D'agua e Aproveitamento Energético do Lixo Urbano e de Resíduos Industriais como forma alternativa de energia. Observem também a audácia de propor Células a Combustível em um curso de especialização lato sensu.

Para isso, reuni um staff de tutores da mais alta capacidade técnica no Brasil, e pudemos oferecer então esse curso de especialização lato sensu a distância, em altíssimo nível de qualidade.

O curso, sempre sob minha coordenação, foi ofertado ininterruptamente de 1998 a 2011, em dois semestres anuais, sendo que em 2012 capacitamos a última turma. Informo, pesarosamente, que o curso foi encerrado em 2012 por razões alheias à minha vontade.

Mas, quem sabe o curso FAE ainda possa retornar um dia??!!

Enquanto em atividades, recebemos capacitandos de todo o Brasil, e a maioria deles se caracterizava pela elevado background.

Todos recebiam a seguinte instrução da Coordenação FAE:

Orientação da Coordenação FAE para a elaboração dos Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC):

Estou permitindo que o pós-graduando escolha livremente o tema para o próprio TCC.

A ideia é aproveitar potenciais latentes, experiências pessoais, conhecimentos adquiridos e propostas inovadoras, que ficariam desconhecidas se designássemos os temas.
Sugiro verificar se é possível apresentar sugestões de políticas públicas, que possam auxiliar o governo, via extensão universitária, em suas propostas estratégicas para superar desigualdades regionais/sociais.

Veja se é possível correlacionar tudo isso, inclusive nosso curso, com a Responsabilidade Social da Universidade. 

Poderá também direcionar o trabalho às necessidades profissionais e/ou pessoais do autor, e/ou necessidades locais e/ou regionais; para sanar algum problema e/ou para apresentar alguma inovação dentro da temática escolhida.
Poderá também direcionar o trabalho em atendimento à Agenda 21(Rio-92), ao Protocolo de Kyoto/97 
(crédito de carbono, por exemplo), Conferência Ambiental de Copenhagen/2009 e/ou a outro movimento de preservação ambiental que trate da problemática do aquecimento global.

 Enfim, seja criativo!!!!

 

Ainda conservo os CDs e DVDs de todos os TCCs em minha sala até hoje, e as respectivas cópias impressas foram doadas para o acervo técnico da área de energia do Departamento de Física (DFI), na pessoa do professor Joaquim, para formar uma biblioteca especializada de consultas e pesquisas.

Também criei o site TCC/FAE no repositório RI/Biblioteca/UFLA, no qual ainda estão disponibilizados todos os trabalhos (TCCs), que se destacaram pela qualidade das propostas e, felizmente, em plena operacionalidade. Visite esse site, você vai gostar, eu garanto!!

Criei também(1981) e mantive até 2018 a webpagina "Formas Alternativas de Energias-FAE", no endereço http://openufla.cead.ufla.br/faepe/site/Com a retirada do sistema do ar, a partir de então, o conteúdo encontra-se disponível para acesso em meu site/blog criado em 2008: www.energialternativa.ufla.br .

Importante destacar que, em 2008, conseguimos uma patente (PI0802791-9) gerada em um TCC de capacitando sob minha orientação, graças ao apoio inestimável do NINTEC/NIT/UFLA.

Hoje, tenho o orgulho de saber que muitos dos capacitados no FAE/UFLA estão trabalhando em todo o Brasil e no exterior, aplicando os conhecimentos aqui adquiridos e promovendo a expansão da utilização de formas alternativas de energia. Imaginem o quanto a ESAL/UFLA se faz presente nesse universo de energia alternativa mundial!!

Para finalizar, reitero que, desde o início, tudo foi um trabalho conjunto e participativo de muitas mãos!! Portanto, minha imensa gratidão a todos que participaram desta empreitada exitosa, uma vez que:

"Se eu vi mais longe, foi por estar de pé sobre os ombros de gigantes". (Issac Newton).

 

E encerro, lembrando Nietzsche:

"E os que dançavam foram considerados loucos por aqueles que não ouviam a música".

E também o sábio Nibiru:

"Para o louco, o sábio e sonhadores, que acreditam em coisas óbvias quando elas ainda são consideradas impossíveis, inimagináveis para pessoas normais."

 

 

Os conteúdos e opiniões apresentados nos artigos desta seção são de responsabilidade exclusiva de seus autores, não correspondem à posição institucional da UFLA. As informações, as fotos e os textos podem ser usados e reproduzidos, integral ou parcialmente, desde que a fonte seja devidamente citada e que não haja alteração de sentido em seu conteúdo.

Ana Cláudia Pereira, Graziane Sales Teodoro, Ricardo Edem Ferreira, Helvécio G. F. Filho

Professores do Instituto de Ciências Exatas (ICE)


Nos últimos meses, muito se tem ouvido falar a respeito do aumento do número de casos do novo coronavírus. E, em meio a tantas notícias sobre a pandemia, a expressão “crescimento exponencial” tornou-se bastante comum. Como todas as reportagens mostram, a expressão crescimento exponencial refere-se a um aumento acentuado no número de casos. Mas de onde vem essa expressão?

No ensino médio, estudamos uma função chamada função exponencial, que apresenta um crescimento ou decrescimento muito rápido. Ela pode ser identificada em situações do dia a dia, tais como problemas envolvendo crescimento de um capital aplicado à taxa de juros compostos, decaimento radioativo, crescimento de bactérias em uma colônia, resfriamento de um corpo, crescimento populacional e, atualmente, é muito utilizada para descrever o crescimento de pessoas infectadas pelo coronavírus.

Coronavírus é uma família de vírus que causam infecções respiratórias. Em dezembro de 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) foi alertada sobre vários casos de pessoas infectadas pelo novo coronavírus na China, causador da doença Covid-19. Com o fluxo internacional de pessoas, em pouco tempo o vírus se espalhou para o mundo e alcançou 189 países.

O primeiro caso de coronavírus no Brasil foi registrado no dia 26 de fevereiro de 2020, em São Paulo. O Brasil confirmou 5.140.863 casos e 151.747 mortes até o dia 14 de outubro de 2020  segundo dados fornecidos pelo governo brasileiro (covid.saude.gov.br).

Em epidemias de fácil contágio, como ocorre com o coronavírus, cada pessoa pode transmitir o vírus para diversas outras pessoas. Se toda a população for suscetível ao contágio e se cada infectado contagiar m novos casos em média, sendo m uma constante maior do que 1, o crescimento é exponencial.

Por exemplo, se cada indivíduo infectado transmite a doença para duas pessoas, m=2, temos o seguinte esquema de propagação:     

coronavirus crescimento






 
Esquema de propagação da Covid-19 e gráfico da função exponencial 


Em notação matemática, o esquema desse exemplo fica f(t)=2t, em que t representa o tempo e f(t), o número de infectados no instante t (Veja o gráfico da função f  acima).

Para saber a relação entre o tempo e o número de infectados, os matemáticos propõem modelos matemáticos que têm o objetivo de retratar a situação real.

Um dos primeiros modelos matemáticos acerca de doenças epidemiológicas deve-se a Daniel Bernoulli (1700-1782). Daniel foi o mais famoso dentre os três irmãos, todos pesquisadores matemáticos. Ele contribuiu de forma significativa com as áreas de Física, Astronomia, Probabilidade, Matemática, sendo um pioneiro no campo das Equações Diferenciais Parciais e suas aplicações. Devido às suas contribuições, foi agraciado dez vezes com o Prêmio da Academia de Ciências de Paris.

Em 1760, Daniel Bernoulli propôs e analisou um modelo matemático, a fim de avaliar os efeitos da variolação. A variolação era uma técnica trazida da China, por volta de 1700, considerada o único meio de combater o espalhamento da varíola, que havia se tornado uma das principais causas de morte na Europa Ocidental, no século XVIII.

O modelo proposto por Daniel Bernoulli é composto de duas equações diferenciais, e leva em consideração o número de indivíduos suscetíveis à doença, a população total, a taxa na qual os suscetíveis contraem a doença, a proporção de suscetíveis que morrem em decorrência da doença e a taxa de morte cuja causa não é a doença em questão.

Com esse modelo, ele concluiu que se a varíola fosse eliminada, a vida média da população aumentaria em 3 anos, passando a vida média de 26 anos e meio para quase 30 anos.

Nos últimos séculos, vários pesquisadores do mundo todo têm se proposto a construir modelos cada vez mais elaborados e adequados às doenças que surgem. O modelo utilizado nos estudos da Covid-19, por exemplo, foi proposto em 1927, por W. O. Kermack e A. G. McKendrick, e é conhecido como Modelo SIR. O modelo SIR divide a população em três classes: os suscetíveis, os infectados e os removidos, sendo considerados removidos indivíduos que estão curados ou vierem a óbito. O modelo SIR é adequado para estudar doenças em que indivíduos infectados que sobrevivem adquirem imunidade.        

É por meio dos resultados obtidos com os modelos matemáticos que os pesquisadores podem prever a eficiência do isolamento social e de medidas de proteção e a porcentagem de indivíduos que devem ser vacinados para erradicar uma doença. Desse modo, a Matemática ajuda o governo a tomar decisões mais assertivas em relação ao combate ao novo coronavírus.

 

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Por Gilmar Tavares

Professor Titular aposentado e extensionista voluntário do Departamento de Engenharia Agrícola (DEA) da UFLA

 

Toda vez que os noticiários jornalísticos informativos da mídia nacional abordam o tema “queimadas”, especialmente “queimadas na Amazônia” e/ou “queimadas no Pantanal”, e também quando vejo aviões agrícolas sendo utilizados no combate a esses incêndios florestais, imediatamente recordo-me do  “I Workshop de Combate a Incêndios Florestais com Aviação Especializada - DEG/UFLA/1995” (O DEG atualmente é identificado por DEA-Departamento de Engenharia Agrícola).

Tudo começou em 1980, quando fui indicado pela Escola Superior de Agricultura de Lavras (ESAL), atualmente UFLA, para participar presencialmente do “I Curso de Instrutores de Coordenação de Aviação Agrícola”, no Centro Nacional de Engenharia Agrícola (CENEA), Sorocaba – SP, promovido pela Embraer, em convênio com o MEC. 

Durante o curso, um detalhe da aviação agrícola chamou-me especial atenção: a operação de “alijamento”, que consiste em uma atitude súbita e emergencial do piloto, quando, diante de um perigo iminente em voo, libera instantaneamente toda a carga do hopper do avião (tanque exclusivo de  produtos químicos sólidos ou líquidos que serão aplicados via aérea),  aliviando, assim, instantaneamente, o peso da aeronave, permitindo-a ganhar altura e mobilidade de ação rápida (há um dispositivo especial na aeronave agrícola para essa ação emergencial que lembra, guardadas as devidas proporções, a ejeção de segurança dos pilotos de aviação militar). 

Eu, muito curioso, perguntei ao instrutor, o saudoso Cmte Ribas, se essa ação emergencial poderia ser utilizada também para apagar fogo, enchendo  completamente o “hopper” com água e alijando-a instantaneamente, e em grande volume, sobre os focos de incêndios. O instrutor respondeu que sim, mas afirmou também que seria necessário um treinamento especial, porque isso seria uma “operação de guerra”, e ilustrou-a imaginando o ataque de um caça-bombardeio a um alvo em terra.

Aquilo ficou gravado em minha mente, porque sempre estive interessado e envolvido em ações de preservação do meio ambiente, e a problemática dos incêndios florestais em parques, reservas e florestas nacionais, já naquela época, incomodava-me e revoltava-me sobremaneira.

Retornando a Lavras, iniciei imediatamente o ensino de Coordenação de Aviação Agrícola no meu Departamento, treinando e capacitando várias turmas, porém sempre com uma visão e abordagem socioambiental.

Por esse motivo, durante esses treinamentos, passei a realizar, em caráter demonstrativo, aulas práticas de  ataque a focos de incêndios, usando água e corante para destacar a ação, gravando-a em vídeo, para posterior divulgação dessa ousada e audaciosa possibilidade de combate a incêndios florestais com o avião agrícola. Só lamento que, naquela época, não tínhamos os acurados celulares que temos hoje em dia, para fotos de qualidade.  

Mas era evidente que um protocolo especial para essa ação deveria ser desenvolvido, ou seja, uma doutrina de ação específica deveria ser utilizada, porque aproximar-se via aérea de um foco de incêndio com o hopper completamente lotado e alijar tudo instantaneamente sobre correntes de ar quentes ascendentes, com presença de fumaça e fuligem, é muito perigoso, perigosíssimo!!!! 

arte combate incendioFoi então que, em 1995, cristalizei um projeto viável para debater participativamente essas questões  específicas com especialistas, simpatizantes e apoiadores, afim de construir uma doutrina ativa especial de ação, com a elaboração de um protocolo de ações adequado ao objetivo final.

Para isso, idealizei e coordenei juntamente com o prof. Wellington Pereira Alencar de Carvalho, recém egresso do CENEA/SP, apoiados pelo DCF/UFLA,  o “I Workshop de Combate a Incêndios Florestais com Aviação Especializada”. Vejam fotos anexas. 

O evento foi um grande sucesso e, no discurso de abertura, afirmei categoricamente que :

“O objetivo deste evento é demonstrar e defender a tese de que uma esquadrilha de aviões agrícolas com pilotos bem treinados em combate a incêndios florestais será a solução para a problemática recorrente dos incêndios em parques, reservas e florestas nacionais, que todos os anos destroem nossos biomas, enchendo nossas vidas de cinzas, trazendo vergonha e morte!!!

Uma esquadrilha de aviões agrícolas com pilotos bem treinados, preparados para a finalidade específica, será a solução para a extinção dos incêndios florestais no Brasil, pelas características da vegetação de nossos biomas e porque nosso País tem cerca de mil aeronaves agrícolas espalhadas por todo território nacional, as quais, após o treinamento específico dos pilotos, poderiam entrar em ação rapidamente, tão logo a aviação civil e/ou outros, localizassem os focos de incêndio via GPS.

Porém, penso que não é simplesmente o avião jogar água em cima do fogo, como possa simploriamente parecer, mas sim, uma operação cuidadosa, que exige treinamento, tecnologia e coordenação. Uma ação tecno-científica profissional bem preparada, em seus vários aspectos. 

Espero,  então, neste sonhado evento, ter a chance de edificar minha teoria, ou seja, que é possível acabar com estes incêndios florestais treinando esquadrilhas e colocando-as em ação no momento oportuno, imediato”.

Um grande público compareceu ao evento. Vários segmentos correlatos ao tema foram identificados e o evento contou com a participação de pesquisadores, professores, operadores militares, que ministraram palestras aos participantes. Enfim, foram dias de seminários e debates proveitosos, incluindo exibições práticas de combate a incêndios no aeroporto local.

O evento tornou-se, por ser pioneiro, um marco na história da aviação agrícola no Brasil. Houve um consenso geral sobre a viabilidade de continuidade da proposta, mesmo identificado-se os custos elevados de possíveis operações aéreas socorristas localizadas.

Embora, no encerramento do evento, não tivéssemos conseguido, naquele momento, redigir o pretendido protocolo de ações, e consequentemente definir uma doutrina de ações específicas padrão, que orientaria a formação, treinamento e ações de esquadrilhas de aviões agrícolas especializadas em combate a incêndios florestais, percebemos claramente que a “boa semente tinha sido lançada e caído em terra fértil” e que, num futuro próximo, essas propostas inovadoras seriam reavaliadas e implementadas de alguma forma, como realmente estão sendo atualmente.

Por tudo o que observamos hoje em dia, embora continuemos a lamentar amargamente os incêndios em nossos biomas, podemos afirmar com segurança que a ESAL/UFLA é o berço do combate a incêndios florestais com aviação especializada, que é uma importante ferramenta a ser aperfeiçoada constantemente.

Parabéns a todos participantes da construção desta história exitosa!!!

 

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Por Michel Eustáquio Dantas Chaves

Doutor em Engenharia Agrícola pela UFLA

Informações sobre a superfície terrestre coletadas por satélites e sensores ganham o noticiário dia após dia. Elas são úteis para auxiliar na compreensão da relação dinâmica entre o homem e o meio ambiente, e têm sido usadas por gestores públicos para promover a implementação de políticas ligadas à segurança alimentar, mudanças climáticas, emissão de gases de efeito estufa, desmatamento e dinâmica agrícola, entre outros. Diante de sua importância, elas devem ser, obrigatoriamente, precisas e detalhadas. Logo, é benéfico dispor de tecnologias capazes de melhorar a extração de informações e o nível de detalhe.

Dados orbitais com resolução espacial média (entre 10 e 30 metros) se consolidaram como adequados para detectar a maioria das interações da natureza humana e coletar informações fenológicas detalhadas. Dois sensores de tal categoria se destacam para essa tarefa em larga escala: o Landsat 8 Operational Land Imager (Landsat 8/OLI), lançado pela NASA, a Agência Espacial Norte-Americana, em 2013; e o Sentinel-2 MultiSpectral Instrument (Sentinel-2/MSI), lançado pela ESA, a Agência Espacial Europeia, em 2015. A disseminação de ambos foi impulsionada por políticas de acesso livre a dados orbitais. Mas, como os dados provenientes deles têm sido úteis? Em artigo escrito por mim e pelas pesquisadoras Michelle Picoli e Ieda Sanches, recentemente publicado no periódico Remote Sensing (altamente conceituado na área de Geociências), analisamos mais de dois mil artigos científicos e sumarizamos como os dados dos sensores Landsat 8/OLI e Sentinel-2/MSI têm sido usados para diferentes propósitos de classificação de uso e cobertura da terra desde 2015, época perpassada pela política de dados abertos e por princípios de ciência aberta no sensoriamento remoto.

O artigo apresenta tendências, potencialidades, desafios, lacunas e perspectivas futuras, com foco especial em índices de vegetação, e visa a guiar novos estudos e direcionar jovens pesquisadores às inovadoras práticas científicas no tema. Este artigo é dedicado aos jovens pesquisadores que querem trabalhar com técnicas de sensoriamento remoto e dados com média resolução espacial, mas diante de tanta informação, não sabem por onde começar ou como inserir sua pesquisa em um contexto atual. Ademais, apontamos que os dados derivados do Landsat 8/OLI e Sentinel-2/MSI fornecem novas perspectivas na aquisição de informações sobre o uso e cobertura da terra, permitindo aprimorar o discernimento sobre a paisagem e processos como o desmatamento e a expansão agrícola, por exemplo. Em particular, o uso de séries temporais e a integração entre os sensores para explorar combinações de bandas e índices de vegetação têm sido eficazes para detectar mudanças.

O artigo pode ser lido em: https://www.mdpi.com/2072-4292/12/18/3062

 

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Por Andréa Portolomeos
Professora de Literatura na graduação e na pós-graduação em Letras da UFLA

Quando me convidaram para escrever este artigo sobre a função da literatura na pandemia, um primeiro desafio logo me veio à cabeça: como me desprender da dicção acadêmica que me acompanha há tanto tempo? Talvez em sala de aula, ao falar sobre literatura, essa dicção se dilua frente ao olhar interrogativo dos alunos sobre questões teóricas, frente ao diálogo espontâneo a que a arte conduz, despertado pelos sentimentos individuais, originários das leituras. Sendo assim, tentarei retomar um pouco esse tom a partir do qual ensino a leitura literária nas minhas aulas sem, no entanto, fazer remissão aqui às correntes teóricas que me amparam nesse processo de ensino-aprendizagem.

Dito isso, vou tentar explicar que a função da literatura em tempos de pandemia (mas também fora desses tempos) é precisamente não ter função nenhuma e, paradoxalmente, essa é a sua mais potente serventia. Quando seleciono uma obra literária para leitura, escolho entrar num território que não corrompe nem edifica de acordo com padrões estabelecidos; ali simplesmente encontro personagens e enredos que são capazes de descortinar as minhas próprias emoções (medos, dores, preconceitos, alegrias etc), deixando-me mais consciente delas. Sendo esse processo de identificação com o texto singular e único, dificilmente vamos aprender as mesmas coisas a partir de um mesmo texto, o que o torna, então, refratário a ensinamentos ou instruções pedagógicas. Ou seja, a leitura literária, no seu sentido mais pleno, é uma das experiências mais solitárias que existem e, assim, a obra mais aponta para as nossas diferenças uns em relação aos outros que para nossas semelhanças. Tentando explicar de outro modo, quando digo que a literatura não tem função pré-determinada, estou dizendo também que esse é seguramente um dos territórios mais livres para você existir, exercitar sua subjetividade. É importante esclarecer que existir através da realização do seu imaginário não significa escapismo da realidade empírica, pois o imaginário – através do ato de leitura – pode estimular uma reorganização de seus sentimentos, favorecendo inclusive a consciência sobre emoções que ainda não tinham sido acessadas por você, mas que sempre estiveram latentes na sua atuação no mundo.

Sei que o processo de enfrentamento e leitura do texto literário implica hoje, em pleno século XXI, um grande esforço, tendo em vista o fato de pertencermos a um contexto histórico marcado pela onipresença de imagens audiovisuais que, na maioria das vezes, incitam um comportamento padronizado de consumo. É claro que podemos pensar mais dialeticamente sobre a potência da imagem, para além de seu consumo rápido, mas esse não é o foco deste texto. Win Wenders, aclamado diretor alemão de cinema que completou 75 anos em agosto deste ano, explorou a paradoxal dificuldade de comunicação entre pessoas neste contexto cada vez mais tecnológico que, em tese, tornaria-nos mais próximos uns dos outros. Seu depoimento no belíssimo documentário “Janela da Alma”, de 2001, com direção e roteiro de João Jardim e Walter Carvalho, problematiza a grande maioria das imagens que nos cercam cotidianamente como imagens que não tentam dar um sentido a algo, mas vender algo. Em caminho oposto, segundo Wenders, está uma das necessidades mais fundamentais do ser humano, que é o desejo de que as coisas comuniquem algo, o que explicaria em parte nosso prazer desde crianças em ouvir histórias. Assim, as narrativas literárias nos confortam à medida que sua estrutura - que aciona nosso imaginário e nossas emoções na coprodução ou leitura do texto – ajuda-nos a criar sentidos para as nossas próprias vidas.

Mesmo quando as imagens que cotidianamente nos cercam pretendem comunicar sentidos, a superabundância delas também parece torná-las inócuas no processo de fortalecimento de nossas subjetividades, de autoconhecimento, de conhecimento sobre a vida. Assim, o excesso gerado pela comunicação virtual na pandemia - podemos pensar, por exemplo, no excesso de lives sobre todos os temas que chegam às nossas casas diariamente, em todos os horários – mais nos informa (quando muito) do que produz reflexões sobre inúmeros e diferentes temas. Então, talvez essa seja uma realidade que mais nos angustia pela impossibilidade de uma efetiva interação ou comunicação que ameniza nossas solidões no isolamento social. Dizendo de outra maneira, a superabundância de estímulos através de imagens veiculadas pela internet, às quais estamos muito atrelados especialmente no contexto da pandemia, pode favorecer um maior distanciamento entre nós, na medida em que a demasia é um obstáculo para uma comunicação satisfatória, pois definitivamente não conseguimos prestar atenção e processar um enorme volume de informação num curto espaço de tempo.

 Ainda sobre esse excesso no contexto audiovisual, Wenders observa que já não somos capazes de ver e nos emocionar com histórias simples num universo de “efeitos de choque” a cada dia mais editados nas imagens. Isso significa que as pequenas coisas do dia a dia tendem a nos dizer muito pouco ou nada hoje em dia; em geral, as histórias e as vidas ordinárias de nossos semelhantes nos emocionam muito pouco ou quase nada. Desse modo, infelizmente não creio que saiamos de uma experiência bastante imersiva na internet, ao longo da dura experiência da pandemia, seres humanos mais sensíveis para a realidade alheia e mais atentos às nossas próprias emoções. Embora tenhamos acesso a tanta informação nestes tempos, o exercício da nossa subjetividade me parece muito comprometido, abatido por uma sensação de impotência.

Não se trata aqui de uma ingênua defesa da leitura literária em detrimento das inúmeras interações que fazemos na internet, mas de problematizar o excesso de conteúdo audiovisual como produtor de conhecimento sobre a vida e sobre o mundo; de discutir a internet como único lugar de refúgio em tempos de pandemia; de pensar o texto literário, as emoções experimentadas com maior liberdade no ato de leitura, como uma interessante via de acesso a nós mesmos para o enfrentamento de nossas solidões. Como diz Alberto Caeiro no poema XXIV de “O guardador de rebanhos”, isso de reconhecer os sentimentos como via legítima de acesso ao conhecimento “exige um estudo profundo”, “uma aprendizagem de desaprender” sobre o legado da razão em nossa sociedade. Então me parece que nestes tempos tão difíceis, a literatura pode nos ensinar sobre o que não somos mais capazes de ver, bombardeados que estamos pelo excesso. Ela pode nos ensinar que “O essencial é saber ver/ Saber ver sem estar a pensar/ Saber ver quando se vê/ E nem pensar quando se vê/ Nem ver quando se pensa”.

 

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