Entrevista com o prof. José Donizeti Alves, do Departamento de Biologia da Universidade Federal de Lavras (Ufla), ressalta os possíveis problemas à cafeicultura, ocasionados pelo excesso de chuvas nos últimos três meses.


Professor Donizeti as chuvas estão ajudando ou atrapalhando o café em nossa região?

Resp.Em relação as chuvas que a mais de um mês vem caindo em nossa região, há de se considerar vários aspectos mês a mês. Até novembro do ano passado, tínhamos ainda um déficit hídrico atípico, quando comparado com a media da região. As plantas sentiram bastante a escassez de água, com baixo crescimento de ramos, amarelecimento das folhas e problemas de floração.
Com as chuvas de dezembro esse déficit hídrico foi reposto e no final do mês tínhamos solo com água armazenada. Essas chuvas foram boas para a lavoura uma vez que com água no solo, a planta deu uma revigorada, recuperando a sua cor verde e fazendo crescer as brotações. As chuvas de dezembro poderão refletir positivamente na safra 2007/2008, caso as plantas apresentem um crescimento compensatório nesta fase final de crescimento, haja vista que o surto de crescimento de novos ramos que deveria ter começado em setembro somente ocorreu satisfatoriamente a partir de dezembro. Vamos aguardar para ver.

Se as chuvas de dezembro foram boas, o que o senhor pode nos dizer sobre as chuvas de janeiro?

Resp.As chuvas de janeiro foram problemáticas devido ao alto volume de água que caiu em nossa região desde o natal. No sul de Minas Gerais, no Triangulo Mineiro bem como nas principais regiões cafeeiras do país, estamos registrando índices pluviométricos alarmantes. Aqui no Sul de Minas, provavelmente fecharemos o mês de janeiro com o dôbro em relação a média de precipitação. Em vez de 300 mm, poderemos alcançar tranqüilamente 580 mm de chuva, o que é muito alto, como todos podem estar notando.

E qual é o efeito dessa chuva excessiva para a cafeicultura?

Resp. Muito ruim. Essa chuva excessiva, como você mesmo mencionou esta prejudicando o controle de doença como a ferrugem. Muita gente não esta conseguindo fazer as pulverizações que deveriam estar fazendo. O mato esta crescendo e as pulverizações foliares estão deixando de ser feitas.

Outro fator negativo seria o da lixiviação de nutrientes, notadamente aqueles móveis no solo, como o nitrogênio e o potássio. Esses nutrientes lixiviados vão ser depositados para regiões fora do alcance das raízes e vão fazer falta para a planta, principalmente nessa fase de enchimento de frutos. Fora isso deve haver nos próximos meses, uma forte deficiência de micro-nutrientes devido ao ambiente redutor no solo.
Finalmente, existem os problemas logísticos. As estradas foram muito danificadas pelas chuvas. Muitos cafeicultores não estão conseguindo sequer fazer chegar em suas lavouras os maquinários para os tratos culturais

E para as plantas em si essas chuvas prejudicam o cafezal?

Resp. As plantas de café são altamente sensíveis a deficiência de oxigênio. E esse e exatamente o problema que esta ocorrendo. Os espaços do solo a serem ocupados pelo oxigênio estão sendo preenchidos por água, portanto, pode haver uma deficiência de oxigênio para as raízes que, dependendo do tipo de solo, ocasiona um déficit de energia para a planta. Esse déficit de energia acarreta problemas de crescimento dos ramos e de enchimento de frutos, com prejuízos em termo de peneira.

Tem-se falado que as chuvas que estão ocorrendo poderá gerar um incremento na produção brasileira ocasionando inclusive baixa no preço de café na bolsa de NY. Qual é a sua opinião sobre isso?

Resp. Para a atual safra, ou seja, o café que vamos colher em 2007 isso seria impossível. Pois a produção ou mesmo o potencial produtivo do café já esta definido. Agora a permanecer essas condições ambientais de excesso de chuva, poderá haver exatamente o contrario, queda na produção, seja por problemas de doenças, nutrição, ausência de tratos culturais ou queda de frutos.
Por outro lado, se a chuva der uma trégua, e caso as plantas apresentem crescimento compensatório, poderemos ter uma safra de 2007/2008 apenas normal e não maior, mas a atual, não vejo nenhuma vantagem ela já está comprometida.
Finalizando, é importante ainda esclarecer que a safra 2007/2008 dependerá, entre outros fatores, da indução, desenvolvimento e floração das peças florais ou seja, da floração em si, que deverá se desenrolar entre os meses de fevereiro e setembro. Até lá é impossível prever se a florada vais ser boa ou não porque até mesmo porque não temos condições de antever as condições climáticas nesse período.

 

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Prof. José Donizeti Alves
Tel: (35) 3829-1346
E-mail: jdalves@ufla.br