“Quero continuar vivendo a minha vida normalmente, não sendo limitado pela doença.” A frase, dita por um dos entrevistados do estudo de mestrado da pesquisadora Fernanda Nunes Maciel, e defendido em fevereiro de 2025, representa o dilema das 20 milhões de pessoas que convivem com o diabetes no Brasil. Tomar o remédio, seguir a dieta, medir a glicose, fazer exercício: tudo isso é essencial, mas nem sempre é seguido à risca. No Brasil, a aderência ao tratamento do diabetes tipo 2 é de cerca de 42%, conforme informações do Ministério da Saúde.

O estudo, realizado no Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade Federal de Lavras (UFLA) por meio de uma parceria de pesquisa entre o Departamento de Administração e Economia (DAE) e o Departamento de Medicina (DME), sob orientação do professor Luiz Henrique de Barros Vilas Boas e da professora Marjori Yeva Nascimento Fernandes Vilas Boas, dá indícios que, ao buscar promover a aderência ao tratamento do diabetes tipo 2, os profissionais de saúde precisam considerar os valores pessoais que orientam os objetivos de vida de cada paciente.

A decisão de seguir o tratamento, portanto, não depende apenas de disciplina ou do controle dos sintomas, mas também de como o paciente percebe o sentido desse cuidado em relação ao que mais valoriza na vida. Se o paciente percebe que o tratamento contribui para metas como longevidade, qualidade de vida, participação ativa em projetos pessoais e coletivos, entre outros, a aderência tende a ocorrer de forma mais consistente e adequada.

Para responder à pergunta “Como os valores pessoais influenciam a aderência aos tratamentos médicos para diabéticos tipo 2, considerando a relação médico-paciente?”, a pesquisa entrevistou 21 pessoas em cidades de Minas Gerais, entre pacientes e médicos, e se apoiou em três teorias que, em linhas gerais, consideram que os valores pessoais são guias para as escolhas que as pessoas fazem, inclusive as relacionadas à saúde.

A primeira teoria, de Milton Rokeach, propõe que os valores são crenças duradouras que orientam o comportamento humano. Eles se dividem em valores terminais (fins desejados da vida, como felicidade ou segurança) e valores instrumentais (meios para alcançar esses fins, como disciplina ou honestidade). A segunda, de Shalom Schwartz, descreve dezenove valores universais que expressam motivações humanas básicas, como poder, benevolência, segurança, prazer e liberdade. A terceira, a Teoria Meios-Fim, de Jonathan Gutman, foi usada por Fernanda como base metodológica para estruturar as entrevistas em profundidade do seu mestrado. Essa teoria, original do campo do comportamento do consumidor, defende que as pessoas escolhem produtos, serviços ou comportamentos porque eles as ajudam a alcançar valores pessoais importantes.

De acordo com essa abordagem, o indivíduo faz escolhas atribuindo significados a suas ações por meio da relação entre atributos, consequências e valores (A–C–V). Assim, as pessoas realizam determinadas ações de consumo de produtos ou serviços baseadas inicialmente em seus atributos, porque esperam certas consequências, que, por sua vez, os aproximam de valores centrais de vida. Para descobrir a relação A-C-V dos pacientes, as perguntas exploraram o que eles consideravam essencial para aderir ao tratamento. Quanto aos médicos, foi feito o mesmo questionamento de forma a compreender qual era a percepção deles, como profissionais de saúde, com relação ao que motivava os pacientes a iniciarem e permanecerem no tratamento. Dessa forma, tanto pacientes quanto médicos tiveram suas percepções sobre a aderência ao tratamento traduzidas, revelando quais atributos, consequências e valores cada grupo associa à aderência.

No caso dos pacientes, o estudo mostrou que o tratamento só faz sentido quando se alinha aos valores que eles mais prezam na vida. Por exemplo, para aceitar ou não começar o tratamento, primeiro o paciente considera os atributos, ou seja, os aspectos ligados ao início dos cuidados (ex.: tomar remédio, medir glicose, acolhimento). Em seguida, ele lida com as consequências diretas ou indiretas dos atributos, isto é, com os benefícios e malefícios de seguir (ou não) o tratamento (ex.: controle da glicose, sentir-se cuidado). O que guia essas etapas são valores terminais, aqueles que são objetivos de vida do paciente (ex.: longevidade, qualidade de vida). Quando o tratamento ameaça um valor terminal, ele tende a ser descontinuado.

A análise das respostas dos médicos mostrou uma lógica diferente: para eles, a aderência está fortemente vinculada ao desempenho técnico e à disciplina, e é percebida como um cumprimento de tarefas e constância no acompanhamento. Por exemplo, ao avaliar um caso de sucesso, o médico também considera os atributos, que para eles são os aspectos técnicos e comportamentais que indicam a aderência (ex.: paciente disciplinado, controle da glicemia). Em seguida, observam as consequências desses atributos, como a melhora dos indicadores clínicos e a estabilidade do quadro de saúde. Mas, o que o médico acredita ser o comportamento ideal do paciente está ligado a valores instrumentais, como disciplina, responsabilidade e autocontrole, o que acaba deixando de lado aquilo que o paciente realmente valoriza em sua vida.

Esses achados revelam uma lacuna de percepção entre médicos e pacientes. Enquanto os médicos tendem a se guiar por valores instrumentais, os pacientes se orientam por valores terminais. Essa desconexão ajuda a explicar parte da dificuldade de aderência ao tratamento. Quando o cuidado médico não se conecta ao que o paciente valoriza mais na vida, o tratamento perde o sentido e, o paciente, a motivação para continuar.

Portanto, o diálogo e a empatia são fundamentais, mas é interessante que essa comunicação seja personalizada conforme o valor final que o paciente acredita alcançar com o tratamento, porque aderir ao tratamento é sobre sentido de vida e bem-estar, não apenas sobre controle clínico.

“Ao longo da pesquisa, percebi que aderir a um tratamento vai muito além de seguir uma prescrição: envolve emoções, vínculos, medos e desafios cotidianos que eu só pude compreender verdadeiramente ao entrar nesse universo pela primeira vez, o que foi profundamente transformador. Também foi enriquecedor observar como os endocrinologistas são afetados por esse processo e como se dedicam a construir confiança, melhorar a comunicação e adaptar o cuidado às diferentes realidades dos pacientes. Meu estudo mostrou que, quando essa compreensão mais profunda acontece, a prática médica torna-se mais acolhedora, eficaz e personalizada. Integrar marketing e saúde, nesse sentido, não significa “vender” tratamentos, mas entender comportamentos e motivações para construir políticas de saúde centradas no paciente, mais humanas, eficientes e alinhadas às necessidades de quem convive com doenças crônicas.” explica Fernanda.

Embora o estudo tenha sido conduzido com um grupo pequeno e concentrado na rede privada, seus resultados abrem caminho para novas investigações sobre como valores pessoais podem orientar práticas médicas mais empáticas e individualizadas, tendo como objetivo a aderência aos tratamentos médicos.

Diretrizes para publicação de notícias de pesquisa no Portal da UFLA e Portal da Ciência

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A Comunicação da UFLA, por meio do projeto Núcleo de Divulgação Científica e da Coordenadoria de Divulgação Científica, assumiu o forte compromisso de compartilhar continuamente com a sociedade as pesquisas científicas produzidas na Instituição, bem como outros conteúdos de conhecimento que possam contribuir com a democratização do saber.

Sendo pequeno o número de profissionais na equipe de Comunicação da UFLA; sendo esse órgão envolvido também com todas as outras demandas de comunicação institucional, e considerando que as reportagens de pesquisa exigem um trabalho minucioso de apuração, redação e revisões, não é possível pautar todas as pesquisas em desenvolvimento na UFLA para que figurem no Portal da Ciência e no Portal UFLA. Sendo assim, a seleção de pautas seguirá critérios jornalísticos. Há também periodicidades definidas de publicação.

Todos os estudantes e professores interessados em popularizar o conhecimento e compartilhar suas pesquisas, podem apresentar sugestão e pauta à Comunicação pelo Suporte. As propostas serão analisadas com base nas seguintes premissas:

  • Deve haver tempo hábil para produção dos conteúdos: mínimo de 20 dias corridos antes da data pretendida de publicação. A possibilidade de publicações em prazo inferior a esse será avaliada pela Comunicação.

  • Algumas pautas (pesquisas) podem ser contempladas para publicação no Portal, produção de vídeo para o Youtube, produção de vídeo para Instagram e produção de spot para o quadro Rádio Ciência (veiculação na Rádio Universitária). Outras pautas, a critério das avaliações jornalísticas, poderão ter apenas parte desses produtos, ou somente reportagem no Portal. Outras podem, ainda, ser reservadas para publicação na revista de jornalismo científico Ciência em Prosa.

  • As matérias especiais de pesquisa e com conteúdos completos serão publicadas uma vez por semana.

  • É possível a publicação de notícias sobre pesquisa não só quando finalizadas. Em algumas situações, a pesquisa pode ser noticiada quando é iniciada e também durante seu desenvolvimento.

  • A ordem de publicação das diversas matérias em produção será definida pela Comunicação, considerando tempo decorrido da sugestão de pauta, vínculo do estudo com datas comemorativas e vínculo do estudo com acontecimentos factuais que exijam a publicação em determinado período.

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