Por
José Alberto Casto Nogales Vera
Professor do Departamento de Física, Instituto de Ciências Naturais (DFI/ICN) e coordenador do projeto A Magia da Física e do Universo.
Rogério Júnior
Mestrando em Educação Científica e Ambiental (UFLA).
Gabriel Pedrozo
Arqueólogo, doutorando em Geociências (UFMG) e responsável pelas informações científicas utilizadas na produção do desenho.
Diego Ramires
Graduado em Educação Física (UFLA), mestre em Artes, Urbanidade e Sustentabilidades (UFSJ) e doutor em Educação (UFRJ) e autor do desenho.
As paisagens naturais antigas de milhares de anos da região de Lavras (MG), e as culturas humanas pré-coloniais que aqui existiram, foram representadas em uma ilustração que uniu habilidades de arte e dados da arqueologia e outras ciências. A iniciativa foi mobilizada no contexto do mestrado em Educação Científica e Ambiental na UFLA, com intenção de recriar essas paisagens antigas e tornar mais compreensível a história em um período iniciado há cerca de 12 mil anos. Defendemos que a união entre arqueologia e arte apresenta grande potencial de colaboração para a educação básica, além de contribuir para a formação continuada de pós-graduandos.
Os sentimentos que experimentamos diante das paisagens, segundo o filósofo Denis Dutton, possuem raízes profundas em nossas mentes, o que ajuda a explicar a recorrência das representações de paisagens naturais ao longo da história. Em Lavras, ao longo de sua breve história de cerca de 300 anos, a população experimentou sentimentos em relação a esse território por meio de mapas do século XVIII, pinturas, desenhos e fotografias produzidas sobretudo no século XX. No entanto, não são conhecidas as paisagens naturais de milhares de anos atrás, tampouco as culturas humanas antigas que existiram antes da chegada dos portugueses.
Nesse contexto, a ilustração produzida apresenta cinco períodos (ou estágios) no tempo, dispostos em ordem cronológica, de cima para baixo, todos referentes ao mesmo perfil topográfico, selecionado em uma região de interesse arqueológico nas redondezas de Lavras, às margens do Rio Grande. O desenho foi feito à mão, colorido a lápis e representado em papel A3 — materiais disponíveis em escolas públicas — pelo professor e ilustrador Diego Ramires. Para sua elaboração, foram utilizados dados científicos de pesquisas em arqueologia e geociências fornecidos pelo arqueólogo Gabriel Pedrozo.
O primeiro estágio é o mais antigo e representa a paisagem no final do Pleistoceno. Nesse período, havia a presença de megafauna. A ilustração, com base em fontes indiretas, apresenta elementos da megafauna, como o bicho-preguiça gigante, e matas de araucárias — elementos que compunham as paisagens naturais do Sudeste brasileiro na época.
No segundo estágio, está retratada a transição entre Pleistoceno e Holoceno, marcada pela presença de diminutos grupos humanos que, por meio da caça e da coleta, ocuparam diversos ambientes das Américas e no Brasil desde 12 mil anos atrás. Na flora, com a extinção da megafauna, alteraram-se alguns elementos da vegetação, mas destaca-se a persistência das matas de araucárias que permaneceram, conforme indicam estudos que apontam que povos pré-coloniais do Sudeste do Brasil mantiveram relações diretas com essas árvores e as manejaram ao longo do tempo.
No terceiro estágio, chama a atenção a modificação da vegetação. Onde antes havia abundantes matas ciliares, surgem paisagens resultantes dos efeitos de um clima mais seco. A cena apresenta árvores menores e arbustos, em consonância com dados paleoclimáticos de várias regiões do Brasil Central, que revelam áreas submetidas a regimes prolongados e severos de seca. Ainda assim, pesquisas sobre o Holoceno Médio indicam que a presença humana não desapareceu por completo nessas vastas regiões interioranas do País. Nesse estágio, destacam-se os impactos da seca sobre a paisagem e sobre as formas de ocupação humana.
No quarto estágio, correspondente ao Holoceno Tardio, e em contraste com o período anterior, a intenção dos autores da ilustração é clara: as habitações passam a preencher o espaço, criando um cenário semelhante à de uma aldeia
indígena contemporânea. Esses grupos humanos organizavam-se em aldeias próximas ao leito do rio Grande e praticavam a horticultura — isto é, cultivo de plantas — que possibilitou a formação de populações numerosas. A maior parte dos vestígios arqueológicos encontrados na região de Lavras e no Campo das Vertentes é originária desse período.
Por fim, no quinto estágio, os observadores da ilustração podem notar uma mudança profunda: a passagem de um mundo indígena para um ambiente rural marcado por plantações, casas coloniais, monocultura do café e pela presença de animais exógenos, como os cavalos trazidos do Velho Mundo.
Essa arte é capaz de demonstrar a transitoriedade da presença humana e de expressar como um único espaço pode guardar múltiplas paisagens, transformadas ao longo dos milênios. Ao mesmo tempo, elementos geológicos e naturais — como porções do relevo e a presença do rio — seguem ritmos próprios de mudança, em outra escala temporal.
Reitera-se que essa atividade se baseou em uma série de estudos científicos aliados a habilidades artísticas, estabelecendo conexões diretas e indiretas — inclusive com dados provenientes de localidades próximas ou de condições semelhantes — para compor essa narrativa da evolução das paisagens de Lavras. Estudos arqueológicos dessa natureza vêm sendo realizados desde a década de 1970 em instituições como a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e outras universidades, com o objetivo de lançar luz sobre esse passado antigo da história e da arqueologia indígena em Minas Gerais.
A atividade pode ser replicada por professores da educação básica nas disciplinas de História, Geografia, Biologia e Arte. O desenho pode ser utilizado para o ensino de arqueologia e da história da região de Lavras, bem como para a promoção de exposições artísticas produzidas pelos estudantes, em diálogo com a arqueologia. Trata-se de uma forma de abordar, de maneira crítica e com sensibilidade artística, temas como biomas, eventos climáticos, cultura indígena, impactos das atividades humanas, sustentabilidade, preservação do meio natural e das espécies animais, agricultura e conservação do patrimônio arqueológico.
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