Um estudo desenvolvido na Universidade Federal de Lavras (UFLA) indica estratégias para proteção das propriedades funcionais e dos compostos bioativos do extrato da própolis verde brasileira, reconhecida internacionalmente por seus benefícios à saúde. A partir do uso de óleos extraídos dos frutos da macaúba - espécie de palmeira nativa brasileira - o trabalho comparou a aplicação de processos de microencapsulação e identificou uma técnica promissora para tornar o insumo mais estável, eficaz e adequado para aplicações alimentícias e farmacêuticas.
Produzido pelas abelhas a partir do alecrim-do-campo (Baccharis dracunculifolia), a própolis enfrenta um desafio prático que motivou o estudo: ela é “sensível”, e quando exposta ao calor, à luz e ao ar, perde parte de suas propriedades bioativas, o que dificulta e limita sua utilização e aplicação, além de reduzir seu aproveitamento pelo organismo. Para que não perca suas funções, uma alternativa é protegê-la por meio de técnicas de microencapsulação.
Tais métodos consistem em envolver o material de interesse, no caso a própolis, em um sistema protetor de carreamento - que é a estrutura formada nos processos de microencapsulação para proteger e transportar os componentes de interesse, geralmente constituída por proteínas, carboidratos ou lipídios, ou ainda uma combinação destes.
Duas dessas técnicas — emulsificação por fusão e spray chilling — foram estudadas e aplicadas a diferentes sistemas lipídicos no doutoramento em Engenharia de Biomateriais de Karoline Ferreira e Silva, feito sob orientação de Diego Alvarenga Botrel e co-orientação de Cleiton Antônio Nunes, docentes do Departamento de Ciência dos Alimentos da Escola de Ciências Agrárias de Lavras (DCA/ESAL/UFLA). O estudo também contou com a co-orientação da pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Simone Palma Favaro.
Ao avaliar sistemas inovadores de microencapsulação da própolis verde brasileira, a pesquisa buscou viabilizar a integridade da própolis e a preservação de seus compostos fenólicos, substâncias naturais das plantas responsáveis pelas principais propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias do produto. O sistema de microencapsulação permite ainda controlar o momento da liberação da própolis no organismo, aumentando seu aproveitamento biológico e ampliando suas possibilidades de uso.
Matéria-prima brasileira aumenta proteção da própolis
Para a microencapsulação, os pesquisadores usaram lipídios, escolhidos por serem seguros para consumo, biocompatíveis e eficientes na proteção contra alterações químicas. Este sistema favorece a liberação controlada dos compostos bioativos no organismo contribuindo para maior disponibilidade do produto no organismo, ou seja, melhorando sua bioacessibilidade. Além disso, potencialmente, reduz o sabor intenso e picante da própolis, permitindo aplicações diretas em formulações alimentícias inovadoras.
O principal lipídio utilizado foi o ácido esteárico, responsável por dar forma e rigidez às cápsulas. No entanto, por formar estruturas muito organizadas, ele pode expulsar parte da própolis do interior da micropartícula e reduzir a eficiência da proteção. Para contornar esse efeito, o ácido esteárico foi combinado separadamente com dois óleos de macaúba, palmeira nativa do Brasil: o óleo da polpa, rico em ácido oleico, e o óleo da amêndoa, rico em ácido láurico. Depois, os pesquisadores fizeram a comparação das duas combinações.
Os resultados mostraram que o óleo da polpa dificultou a organização excessiva da micropartícula formada pelo ácido esteárico, aumentando a retenção da própolis e sua estabilidade ao longo do tempo. Já o óleo da amêndoa favoreceu a digestão da estrutura lipídica e a liberação em condições intestinais dos compostos bioativos, avaliada in vitro.
Inovação em processos demonstra resultados promissores
Duas técnicas de microencapsulação foram utilizadas na pesquisa — emulsificação por fusão e spray chilling — e permitiram comparar o desempenho de cada combinação de sistemas lipídicos. Ambos processos resultam em um produto fino com características de um material em pó, que contém os compostos bioativos da própolis e é encapsulado na estrutura lipídica solidificada.
Na emulsificação por fusão, o resfriamento que resulta no sistema encapsulante ocorreu de forma mais lenta e mostrou uma redução na capacidade das micropartículas de reter a própolis ao longo do tempo, levando à perda de parte dos compostos bioativos durante o armazenamento.
Já no spray chilling, o processo de resfriamento mais rápido contribuiu para manter esses compostos dentro da cápsula. Dessa maneira, a técnica apresentou maior eficiência na proteção da própolis em comparação à emulsificação por fusão, com maior retenção dos compostos bioativos e menor degradação durante o armazenamento. Além disso, por não utilizar água nem solventes orgânicos, o processo envolve menos etapas, menor risco de contaminação e maior viabilidade para aplicação em escala industrial.
A partir dos resultados obtidos, o estudo indica que o spray chilling é uma estratégia promissora para a proteção da própolis verde brasileira, abrindo caminho para pesquisas voltadas à aplicação dessa técnica em maior escala. Além disso, o sistema de carreamento lipídico desenvolvido, utilizando o óleo da macaúba, tem potencial para ser utilizado para a proteção de outros compostos naturais sensíveis. O processo também pode ser estudado em outros campos de aplicação, como por exemplo, na agricultura, por meio da liberação de compostos de interesse no solo ou em partes da planta, e na alimentação de animais, por meio da proteção e liberação controlada de nutrientes.
Para Karoline, “além das contribuições científicas, o estudo reforça a importância de valorizar matérias-primas nacionais e desenvolver tecnologias que conectem a pesquisa acadêmica às necessidades da sociedade”. De acordo com a pesquisadora, os próximos passos envolvem o refinamento das formulações, ampliação dos estudos de estabilidade e avaliação sensorial com o público-alvo.