Uma planta arquitetônica transformada em um mapa que pode ser “lido” com as mãos. Em um trabalho desenvolvido na Universidade Federal de Lavras (UFLA), a impressão 3D foi usada para reproduzir corredores, salas, laboratórios e outros espaços de uma edificação em relevo. Nos testes, pessoas cegas ou com baixa visão conseguiram identificar ambientes e traçar rotas pelo tato.
O trabalho foi desenvolvido pelo estudante Hilton Aries Cortez Mauro Filho, do Bacharelado Interdisciplinar em Ciência e Tecnologia (BICT), sob orientação do professor Flávio Alves Damasceno, do Departamento de Engenharia da UFLA. A pesquisa também comparou três materiais usados na impressão para verificar qual deles oferecia melhores condições para a leitura tátil.
A dificuldade de se orientar em um prédio sem informações acessíveis motivou o estudo. “A pessoa pode conhecer a organização daquele espaço antes de começar a percorrê-lo. Ela consegue identificar onde estão as salas, as passagens e outros pontos de referência e pensar no caminho que precisa fazer”, explica Hilton.
O ponto de partida foi a planta do térreo do Departamento de Engenharia da UFLA. No arquivo digital, foram selecionadas informações como paredes, passagens e símbolos. Depois, a planta foi convertida em um modelo tridimensional e preparada para impressão.
Foram produzidas três peças com a mesma geometria, mas com materiais diferentes: PLA, ABS e PETG. A comparação era necessária porque textura, acabamento e definição dos relevos interferem na leitura feita com as mãos. O PLA tem facilidade de impressão e boa reprodução de detalhes, o ABS apresenta resistência mecânica e durabilidade, e o PETG reúne características dos dois materiais.
Os modelos foram apresentados a seis pessoas cegas ou com baixa visão, sem que elas soubessem previamente qual material havia sido usado em cada peça. Os participantes avaliaram a orientação no espaço, a sensação ao toque e a facilidade para reconhecer os símbolos.
Foi nessa etapa que o mapa deixou de ser apenas uma reprodução em relevo da planta do prédio. A partir de um ponto previamente definido, alguns participantes conseguiram localizar ambientes e traçar caminhos pelo tato. “O que nos chamou a atenção foi eles conseguirem usar o mapa para pensar um percurso. Não era só reconhecer uma parede ou um símbolo. Alguns conseguiam partir de um ponto e mostrar como chegariam a outro lugar do prédio”, afirma Flávio.
A diferença entre os materiais também apareceu na escolha dos participantes. Quatro dos seis, preferiram o PETG. Dois escolheram o PLA e nenhum indicou o ABS. Quem optou pelo PETG relatou maior conforto ao toque e facilidade para identificar os símbolos. “A gente percebeu que não basta o material reproduzir bem os detalhes. Ele também precisa ser confortável para quem vai percorrer o mapa com os dedos. O PETG teve uma aceitação maior justamente nessa combinação”, diz Hilton.
Outra característica da impressão 3D é a possibilidade de alterar o próprio arquivo quando o espaço representado sofre alguma mudança. Em métodos que utilizam matrizes físicas, como a termoformação, modificações na planta podem exigir a produção de uma nova matriz. No modelo digital, a alteração pode ser feita antes de uma nova impressão. “Se muda uma sala, uma parede ou alguma passagem, não é preciso começar tudo de novo. A alteração pode ser feita no arquivo e depois o mapa é impresso novamente. Isso também facilita pensar no uso em outros prédios”, explica Flávio.
Os resultados, porém, ainda são iniciais. Os pesquisadores recomendam ampliar o número de participantes antes de avançar nas conclusões sobre o desempenho dos materiais. “Agora precisamos testar com mais pessoas e em outros espaços. Os seis participantes já deram informações importantes sobre o que funciona e o que precisa ser melhorado, mas ampliar esses testes é necessário para avançar”, afirma Hilton.
Esse conteúdo de popularização da ciência foi produzido com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais - Fapemig.