O que muda na alimentação das mulheres durante a gestação e após o parto? Um estudo desenvolvido na Universidade Federal de Lavras (UFLA) buscou traçar esse cenário, analisando estado nutricional, comportamento e práticas alimentares de gestantes atendidas nos serviços de saúde de Lavras, Minas Gerais. Uma das evidências é que, durante a gestação e o pós-parto, aumentam os níveis de mindful eating e de comer intuitivo, mesmo que as mulheres não conheçam ou não escolham deliberadamente essas práticas.
O termo mindful já é bem conhecido por estar relacionado a práticas de meditação e à atenção plena ao momento presente. Na alimentação, significa estar totalmente presente no momento da alimentação, atento às sensações e sem focar em distrações ou em julgamentos a respeito do alimento que está sendo ingerido. Já o comer intuitivo é praticado quando a pessoa se alimenta motivada pela observação dos sinais do próprio corpo, e não movida por fatores externos. Come-se por estar com fome, não por estar no horário, ou por ceder a um momento de tristeza, ansiedade ou outras emoções.
O levantamento das informações sobre a alimentação das mulheres que participaram do estudo foi feito por meio de entrevistas estruturadas, com pacientes em consultórios médicos e postos de saúde, nas redes pública e privada. Foram duas etapas de aplicação: durante a gestação, quando 200 mulheres participaram do levantamento, e dois meses após o parto, por telefone (devido ao isolamento derivado da pandemia de Covid19), quando 132 dessas mulheres completaram o processo.
Segundo a coordenadora das pesquisas, a professora do Departamento de Nutrição, Faculdade de Ciências da Saúde (DNU/FCS) Lílian Gonçalves Teixeira, a busca é por compreender o cenário de alimentação das gestantes. “São dados ainda iniciais. Ainda há poucos estudos sobre essas práticas em gestantes, não sendo possível ainda análises conclusivas sobre seus efeitos, mas os resultados já nos sugerem que as gestantes adotam naturalmente caminhos alimentares diferentes dos que tinham antes da gravidez, e que tendem a ser mais saudáveis. São informações que nos permitem observar o contexto, e partir para novos estudos. Na população geral, as pesquisas já mostram benefícios do mindful eating para a saúde mental, redução de estresse, níveis metabólicos e glicemia, por exemplo.”, relata.
Comer intuitivo: por que - e o quê - a mulher decide comer
Os resultados do estudo mostraram que, durante a gestação, crescem algumas práticas do comer intuitivo entre as mulheres. Por exemplo, elas observam mais os sintomas de fome e saciedade para decidir se alimentar ou não. Essa característica fica mais frequente na gestação e cresce ainda mais no pós-parto. “É possível que a nova rotina com o bebê acabe tornando-se o foco da mulher, o que contribui para que ela não ceda a práticas como comer apenas porque está no horário, ou porque outros membros da família estão se alimentando naquele momento, etc”, avalia.
Pelos resultados, as mulheres passam também a escolher melhor o que comem quando estão na gestação, havendo maior congruência na escolha dos alimentos, e essa prática desacelera um pouco no pós-parto, embora não volte a ser como antes da gestação. “Esse dado sugere que realmente elas adotam um comer mais consciente durante a gestação, o que pode estar ligado à preocupação com a saúde do bebê, e, após o parto, a amamentação também pode estimular intuitivamente o compromisso com o bebê e com uma alimentação saudável”.
Foco no momento da alimentação
O mindful eating também se mostra mais praticado durante a gestação, com médias ainda maiores no pós-parto. Nessa perspectiva são avaliadas questões como a consciência alimentar, a distração ao comer, a desinibição, o comer emocional e o comer em resposta a sinais externos. Durante a gestação, a mulher se distrai menos enquanto se alimenta, e apresenta o maior índice de consciência alimentar, ou seja, tem maior concentração no ato de se alimentar e está mais consciente dele.
Mindful eating maior entre pacientes da rede privada
Os níveis mindful eating foram menores entre as gestantes em atendimento no SUS do que no setor privado. Essa observação indica que, no caso de programas que visem estimular a prática, pode ser necessária uma intervenção diferenciada em cada um desses setores, para abranger os fatores socioeconômicos inerentes a cada grupo, de forma a equilibrar sua influência na melhoria dos comportamentos alimentares.
Comportamento alimentar oscilando mais no pós-parto
Os dados mostraram que os níveis de descontrole alimentar e o comer emocional são mais elevados no período pós-parto, com uma frequência maior do que durante a gestação ou antes dela. É também no pós-parto que cresce a restrição cognitiva, ou seja, a tendência de decidir privar-se de forma consciente de alimentos. “Nesse período, a mulher já começa a se cobrar sobre retomar o peso anterior e tende a restringir mais a alimentação, porém, ao mesmo tempo, ela tem mais episódios de descontrole e de comer emocional. Esses extremos parecem acabar estimulando as oscilações no comportamento alimentar”, avalia.
Um dado curioso é que a insatisfação com a imagem corporal diminui na gravidez e volta a aumentar no pós-parto. “É como se tivéssemos certa permissão implícita, nesse período, para aceitar melhor o corpo, o que deixa existir depois do parto”.
As pesquisas já deram origem a seis dissertações de mestrado, nove trabalhos de conclusão de curso e 17 de iniciação científica. Algumas das publicações geradas são os artigos “Mindful eating durante a gravidez: um estudo comparativo conforme a atenção pré-natal” e Relação dos sinais de depressão pós-parto e sono com a qualidade da dieta em mulheres no período do pós parto, ambos publicados em 2024.
Esse conteúdo de popularização da ciência foi produzido com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais - Fapemig.
Apuração e Matéria: Ana Eliza Alvim Revisão Textual: Samara Avelar Artes Gráficas: Edër Spuri