Um estudo desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Lavras (PPGE/UFLA) mostra que a biblioteca escolar pode ter um papel decisivo na formação de leitores críticos, sensíveis e autônomos, quando integrada ao cotidiano das aulas. A pesquisa analisou práticas de leitura em uma turma do 5º ano do ensino fundamental, em uma escola pública do Sul de Minas Gerais.
Os resultados indicam que, quando incorporada à rotina escolar, a biblioteca deixa de ser apenas um espaço de apoio e se transforma em ambiente ativo de aprendizagem, estimulando o interesse pela leitura literária e fortalecendo o vínculo das crianças com os livros. Nesse contexto, o chamado “letramento literário”, ou seja, a capacidade de compreender, interpretar e se relacionar com textos literários de forma significativa, aparece como elemento central no processo educativo.
“Para entender como essas vivências leitoras acontecem na prática, acompanhei, ao longo de um período, oito aulas de leitura realizadas na biblioteca da escola, envolvendo 22 estudantes com idades entre 10 e 11 anos. As observações foram registradas em diário de campo, sem interferência nas atividades, o que permitiu uma análise mais próxima da realidade escolar”, explica a mestra em Educação responsável pelo estudo, Angélica Sheila Moreira.
Além da observação em sala, também foram realizadas entrevistas com a professora, a bibliotecária e a equipe pedagógica da escola, buscando compreender diferentes perspectivas sobre o papel da leitura, do letramento literário e da biblioteca no ambiente escolar.
Mediação e desafios
O estudo indica que investir na biblioteca escolar e em práticas de mediação da leitura é um caminho promissor não só para a formação de leitores, mas também para o desenvolvimento de competências socioemocionais dos estudantes.
De acordo com os resultados, atividades mediadas, conduzidas por professores e bibliotecários, incentivam não apenas a leitura em si, mas o diálogo, a interpretação e a troca de ideias entre os alunos. Essas práticas contribuem para o desenvolvimento socioemocional, ao estimularem a empatia, a expressão de sentimentos e a conexão dos estudantes com as experiências apresentadas nos textos literários.
A coordenadora da pesquisa e professora da Faculdade de Filosofia, Ciências Humanas, Educação e Letras (Faelch/UFLA), Mauricéia Silva de Paula Vieira, destaca outros fatores relevantes. “A diversidade de obras disponíveis e a organização do espaço influenciam o engajamento das crianças. Projetos de leitura bem estruturados, aliados a atividades interativas, podem estimular o interesse pelos livros mesmo em um cenário marcado pelo uso intenso de tecnologias digitais”, diz.
Momentos dedicados à leitura e o contato com diferentes gêneros literários também contribuem para esse processo, especialmente quando associados a estratégias como escuta ativa, tecnologias, conteúdos audiovisuais e rodas de conversa. Por outro lado, as pesquisadoras apontam desafios importantes, como a necessidade de maior participação das famílias e de políticas públicas mais consistentes de incentivo à leitura.
A formação de professores também aparece como um ponto crítico. Segundo a pesquisa, ainda há lacunas na preparação dos docentes para trabalhar a literatura em sala de aula, especialmente no que diz respeito a metodologias que tornem a leitura mais significativa e menos mecânica. Sem uma mediação adequada, práticas de leitura literária podem acabar sendo vistas como obrigação, o que tende a afastar os estudantes.
Na avaliação das pesquisadoras, os resultados reforçam a importância de fortalecer políticas e práticas que valorizem a leitura literária desde os primeiros anos da educação básica, consolidando a biblioteca como um espaço estratégico no desenvolvimento socioemocional dos alunos e no processo de ensino e aprendizagem.
A dissertação “Práticas de leitura e letramento literário no 5° ano do ensino fundamental – anos iniciais: a biblioteca escolar como espaço de formação de leitores” está disponível no Repositório Institucional da UFLA e, ao final, traz como produto educacional uma sequência didática voltada ao gênero poema, pensada para apoiar o planejamento de professores.
Esse conteúdo de Comunicação Pública da Ciência foi produzido com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais - Fapemig.