Uma pesquisa realizada no Departamento de Recursos Hídricos da Universidade Federal de Lavras (DRH/UFLA) provou que, principalmente desde a última década, as alterações climáticas estão atuando fortemente sobre os recursos hídricos do estado de Minas Gerais, produzindo secas hidrológicas. De acordo com os pesquisadores, essa mudança foi observada, especialmente, nas bacias dos rios Jequitinhonha, São Francisco e Doce, o que pode impactar a economia e a sociedade mineiras.
Para chegar a esse resultado, a equipe de pesquisa analisou o armazenamento de água subterrânea nos últimos 40 anos em cinco bacias hidrográficas de cabeceira de Minas Gerais, ou seja, em áreas de captação de água localizadas nas partes mais altas dessas bacias, com pouca interferência humana. A metodologia utilizada permitiu constatar a ocorrência de secas hidrológicas, ou seja, a diminuição da disponibilidade de água nos cursos d’água, principalmente nos períodos secos do ano.
Os pesquisadores também observaram que, em todas as bacias hidrográficas estudadas, houve o aumento da temperatura média anual. “Porém, esse aumento foi mais expressivo justamente nas bacias dos rios Jequitinhonha, São Francisco e Doce. Outra descoberta foi a de que a temperatura mínima do ar nessas bacias sofreu alterações ainda mais significativas. As bacias dos rios Grande e Sapucaí, porém, não apresentaram aumento significativo”, revela o orientador do estudo e professor da Escola de Engenharia, Carlos Rogério de Mello.
Já em relação à chuva anual, foram observadas reduções mais fortes nas bacias dos rios Jequitinhonha e Sapucaí, com as demais bacias não apresentando mudanças significativas. De acordo com a doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Recursos Hídricos (PPGRH/UFLA) e também autora da pesquisa, Camila Lúcia Cardoso Ribeiro, “todos esses resultados permitiram descobrir que, mesmo as bacias que apresentaram tendências mais fracas de aumento de temperatura e redução de precipitação apresentaram redução do armazenamento subterrâneo, sendo a bacia do rio Sapucaí um exemplo dessa realidade”, explica.
A bacia do Rio Grande é a única que ainda não apresentou resultado significativo de redução do armazenamento subterrâneo, o que significa que a sua disponibilidade hídrica ainda se manteve, pelo menos até 2020.
Os pesquisadores também enfatizam que compreender como o clima tem afetado rios mineiros é imprescindível para que todos percebam a importância do desenvolvimento de estratégias para reduzir tais impactos, como redução no desperdício de água, melhores estratégias para a agricultura, preservação de florestas e uma gestão racional do uso da água.
O professor Carlos ainda ressalta que, para uma segunda etapa, há a intenção de trabalhar utilizando dados de simulação climática e hidrológica até meados do século XXI, traçando um panorama futuro para as condições hidrológicas do estado de Minas Gerais. “Nossos resultados traçam uma situação atual e futura do que se espera das mudanças climáticas e seus impactos no estado, e podem ser a base para o desenvolvimento de estratégias de resiliência contra as secas hidrológicas”, afirma.
A metodologia
Para realizar o estudo, os pesquisadores utilizaram dados de vazão (volume de água que passa por um rio em um determinado período de tempo), chuva e temperatura, todos diários e disponíveis nos sites da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
Inicialmente, a equipe determinou quais bacias iriam ser estudadas, buscando aquelas que apresentassem dados entre 1980 e 2020 e que possuíssem o caráter de pouca ou nenhuma intervenção antrópica (ações do homem), tais como desmatamento, agricultura e áreas urbanas. Essa seletividade foi necessária para permitir conclusões sobre a efetiva ação do clima, evitando a sobreposição de efeitos do uso do solo e do clima sobre a hidrologia das bacias.
Após a seleção, foram analisadas na pesquisa as bacias dos rios Grande (Bom Jardim e Madre de Deus de Minas), Sapucaí (Itajubá e Santa Rita do Sapucaí), São Francisco (Fazenda da Barra e Iguatama), Piracicaba (afluente do rio Doce) e Jequitinhonha (Vila Terra Branca). Os nomes entre parênteses se referem às seções mais a montante (mais acima) nas respectivas bacias, com dados de boa qualidade e dentro do período analisado.
Por fim, foi aplicado um método indireto para estimar o armazenamento de água subterrânea, conhecido como “método de Brutsaert”: todas as séries históricas (vazão, armazenamento subterrâneo, precipitação e temperatura) foram analisadas ao longo do tempo para identificar se estava havendo redução da disponibilidade hídrica relacionada com o comportamento da precipitação e da temperatura do ar.
Mais sobre o estudo
O artigo “Groundwater storage trend in headwater basins: shreds of evidence from the last decades in Minas Gerais state, Brazil” (“Tendência de armazenamento de águas subterrâneas em bacias de cabeceiras: vestígios de evidências das últimas décadas no estado de Minas Gerais, Brasil”) foi publicado pela Environmental Earth Sciences em maio de 2024, contando também com a autoria de Jorge A. Guzman, da University of Illinois Urbana-Champaign.
A pesquisa foi desenvolvida como parte das atividades de pós-doutoramento do professor Carlos na University of Illinois Urbana-Champaign, financiadas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Atualmente, Camila está nessa mesma instituição realizando doutorado sanduíche.
Esse conteúdo de popularização da ciência foi produzido com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais - Fapemig.
Apuração e Matéria: Claudinei Rezende.
Revisão: Ana Eliza Alvim, Samara Avelar.
Artes Gráficas: Edër Spuri.
Imagem: IEPHA – Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico.