Peixes da bacia do Rio das Velhas, um dos principais afluentes do Rio São Francisco, acumulam microplásticos há pelo menos duas décadas, segundo pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Lavras (UFLA). O estudo analisou amostras coletadas desde 1999 e identificou que a presença dessas partículas varia conforme o grau de urbanização e o uso do solo ao redor dos rios.

Os microplásticos fragmentos com menos de cinco milímetros já estão incorporados ao ambiente aquático e aos organismos que vivem nesses ecossistemas. A pesquisa utilizou uma base considerada rara: peixes preservados ao longo de mais de 20 anos, originalmente coletados para outros estudos e agora reavaliados sob a perspectiva da contaminação plástica.

“Esses exemplares funcionam como uma cápsula do tempo. Eles registram no próprio corpo o nível de contaminação do período em que viveram”, explica a doutoranda Mariana Ferreira Moreira, autora da tese no Programa de Pós-Graduação em Ecologia Aplicada da UFLA, sob orientação do professor Paulo dos Santos Pompeu.

Diferenças entre regiões e tipos de ambiente

Os resultados mostram que a contaminação não ocorre de maneira uniforme.

No Rio das Velhas, que atravessa a Região Metropolitana de Belo Horizonte, a presença de microplásticos nos peixes analisados se manteve relativamente estável desde o fim da década de 1990. Já no Rio Cipó, localizado em área mais preservada dentro do Parque Nacional da Serra do Cipó, foi observada tendência de redução ao longo dos anos.

Em contraste, trechos mais a jusante da bacia, áreas mais distantes das nascentes e com forte influência da agropecuária  apresentaram tendência de aumento na contaminação.

O estudo também identificou que ambientes de água mais parada, como lagoas marginais e reservatórios, funcionam como zonas de acúmulo dessas partículas, elevando a exposição dos organismos aquáticos.

Pequenos peixes, grandes respostas

A pesquisa concentrou-se em espécies de lambaris, peixes pequenos e abundantes na bacia. Apesar da aparência semelhante, as espécies não reagiram da mesma forma à presença de microplásticos. Algumas apresentaram maior ingestão do que outras.

O dado é relevante porque indica que o uso de uma única espécie como indicador ambiental pode não refletir com precisão a dimensão da contaminação em um ecossistema.

Além disso, fatores como turbidez da água influenciam a ingestão. Em ambientes mais turvos, peixes que se alimentam visualmente podem ter maior dificuldade em distinguir alimento de partículas plásticas.

Do rio ao prato

Embora os efeitos dos microplásticos na saúde humana ainda estejam em investigação, o fato de essas partículas circularem na cadeia alimentar acende um alerta.

“O peixe é uma fonte importante de alimento para muitas comunidades. Entender onde e como ocorre a contaminação é essencial para pensar em conservação dos rios e segurança alimentar”, afirma a pesquisadora.

Os resultados reforçam a importância do monitoramento contínuo da qualidade da água e dos organismos aquáticos, especialmente em regiões sob pressão urbana e agropecuária.

Ciência que olha para trás para entender o futuro

Mais do que mapear um problema atual, o trabalho de Marina evidencia o valor do monitoramento ecológico de longo prazo e das coleções científicas. Amostras guardadas por décadas em acervos universitários hoje permitem reconstruir a história da poluição e compreender como os rios mudaram ao longo do tempo.

A pesquisa já inspira novos desdobramentos. Duas alunas de iniciação científica ampliam agora o estudo, analisando peixes de córregos urbanos e espécies juvenis de piracema aquelas que migram para se reproduzir. A ideia é entender como diferentes hábitos e ambientes influenciam o acúmulo de microplásticos. A equipe também pretende incluir outras espécies, como cascudos, que vivem no fundo dos rios.

O que antes eram peixes guardados em frascos hoje ajuda a contar uma história maior: a transformação silenciosa dos rios mineiros em um mundo cada vez mais marcado pelo plástico.

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