Você já havia imaginado que uma árvore solitária no meio de um descampado poderia ser importante para a conservação da biodiversidade e para o meio ambiente? O professor da Universidade Federal de Lavras (UFLA) Eduardo van den Berg é responsável por coordenar uma linha de pesquisa sobre Pequenos Elementos da Paisagem (PEPs), os quais podem ser árvores isoladas, linhas de árvores nativas em valos de divisa, cercas de arame e fragmentos florestais menores que um hectare. O estudo sobre PEPs mostra que esses elementos são de extrema importância para a dispersão de sementes e pólen, contribuindo, assim, para a conservação da biodiversidade.

Pesquisadores liderados por Eduardo já publicaram dois artigos sobre o tema, em revistas de alta visibilidade internacional. O artigo mais recente, “Small landscape elements double connectivity in highly fragmented areas of the brazilian Atlantic Forest” (“Os Pequenos Elementos da Paisagem dobram a conectividade em áreas altamente fragmentadas de Mata Atlântica”), publicado em maio pela revista Frontiers in Ecology and Evolution, ressalta justamente os resultados da pesquisa sobre os PEPs.

foto de uma área com mata fechada

O estudo evidencia que os PEPs são fundamentais para a conectividade biótica em paisagens fragmentadas, ou seja, são essenciais para manter a movimentação de animais como pássaros de pequeno e grande porte e de polinizadores, auxiliando na dispersão de sementes e de pólen, processo essencial para a manutenção da diversidade de espécies de árvores. Além de potencializarem naturalmente os processos de restauração florestal, os PEPs podem ajudar na polinização das plantações agrícolas, aumentando a produção.

Flávia e seu pai em pose

De acordo com os pesquisadores, a ideia para o artigo surgiu após constantes conversas com produtores rurais e uma observação feita pelo pai de uma das participantes do estudo, Flávia Freire de Siqueira, egressa da UFLA que desenvolveu seu TCC e sua tese de doutorado sob a orientação de Eduardo. “Meu pai, Manoel Gualberto de Siqueira, um ecólogo sem formação acadêmica e pequeno agricultor, certa vez me disse que algumas cercas e árvores, que estávamos olhando, eram poleiros para passarinhos, que, depois, iriam plantar novas árvores. Isso me incentivou a formular hipóteses. Eu consegui associar essa observação aos PEPs e, com a ajuda do meu orientador, Eduardo, qualificamos tudo cientificamente e começamos os trabalhos. Felizmente, conseguimos provar que os PEPs são capazes de aumentar em 50% a conectividade de áreas fragmentadas da Mata Atlântica e que a conservação desses elementos é de extrema importância para a manutenção de fluxos na paisagem.”

Implicações para a conservação

Em uma escala global, as áreas protegidas estão, em sua maioria, desconectadas devido à falta de planejamentos e ao uso conflitante entre áreas de produção agrícola e áreas para a conservação da biodiversidade. Estratégias tradicionais para a conservação da biodiversidade e para o combate dos efeitos negativos da fragmentação mostram que esses efeitos podem ser diminuídos pela implantação de corredores de biodiversidade e pela criação de áreas protegidas, que demandam grandes áreas de restauração e a construção de parques. Na região da Mata Atlântica, ecossistema onde 70% da população brasileira vive, colocar isso em prática é considerado complicado e custoso. Contudo, o estudo sobre PEPs comprova que os Pequenos Elementos da Paisagem, amplamente distribuídos em áreas de produção, também podem incrementar acentuadamente a conectividade entre fragmentos maiores  e, consequentemente, entre unidades de conservação.

foto com árvores em linha

Apesar da importância dos PEPs, os pesquisadores relatam que a maioria dos estudos publicados negligencia a existência desses elementos. Além disso, não há nenhuma legislação voltada para a proteção dos PEPs. Portanto, Flávia ressalta que é primordial que os PEPs sejam reconhecidos e considerados como estruturas conectivas entre fragmentos e áreas protegidas. Dessa forma, ganhos para a diversidade local nas propriedades rurais serão conquistados por meio do aumento da conectividade nas áreas. Por isso, há a necessidade da criação de uma maior proteção legal para os PEPs, já que algumas espécies de árvores isoladas, por exemplo, só são mantidas na paisagem por serem protegidas por lei.

Árvores isoladas

O primeiro artigo, “How scattered trees matter for biodiversity conservation in active pastures” (“Como árvores isoladas importam para a conservação da biodiversidade em pastagens ativas”), publicado em 2017 pela revista Agriculture, Ecosystems & Environment, é resultado de uma pesquisa que se originou em 2014, quando Flávia ainda estudava Ciências Biológicas na UFLA e participava de um projeto de iniciação científica supervisionado pelo professor Eduardo.

árvore isolada no centro da foto

O projeto investigou o interesse dos produtores rurais em selecionar as espécies de árvores solitárias que poderiam ficar nas pastagens. Durante o trabalho, os participantes da pesquisa acabaram verificando que as árvores isoladas são capazes de favorecer a regeneração sob as suas copas, aumentar a diversidade em pastagens e fornecer serviços ecossistêmicos como, por exemplo, sombra para o gado, o que acaba sendo um dos motivos pelos quais os produtores rurais acabam permitindo que essas árvores permaneçam nas pastagens.

Entretanto, os pesquisadores afirmam que, atualmente, o processo de eliminação de árvores isoladas em Minas Gerais depende de uma simples autorização emitida de forma simplificada pelo órgão ambiental, sem a necessidade de uma averiguação técnica ambiental efetiva. Isso acaba facilitando o corte de árvores isoladas e colocando em risco a maioria dessas árvores de Minas Gerais, que, mesmo estando sozinhas na pastagem, exercem um papel significativo para as áreas rurais.

As equipes

A pesquisa sobre árvores isoladas contemplou a dissertação de mestrado do pesquisador Lucas Voellger Calasans (egresso da UFLA) e dois trabalhos de conclusão de curso na Graduação - o da própria Flávia e o do pesquisador Renato Queiroz Furtado (também egresso da Universidade).

dois pesquisadores na mata protegendo uma muda com uma armação em tela
Além desses nomes, o artigo publicado contou com a autoria de Vilany Matilla Colares Carneiro (egressa) e do professor Eduardo (docente do Departamento de Ecologia e Conservação da UFLA). O segundo artigo também teve a autoria de Flávia e Eduardo, além da participação da professora do Departamento de Ciências Florestais da UFLA, Dulcineia de Carvalho; da pós-doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ecologia Aplicada da UFLA, Vanessa Leite Rezende; do pesquisador da University of Queensland na Austrália, Jonathan Rhodes, e da pesquisadora da Deakin University na Austrália, Carla L. Archibald.

Ambos os artigos produzidos fazem parte da linha de pesquisa em Ecologia e Conservação dos Pequenos Elementos da Paisagem, desenvolvida no Laboratório de Ecologia Vegetal da UFLA, sob a coordenação do professor Eduardo.

Texto: Claudinei Rezende, bolsista Pibec.

Revisão: Ana Eliza Alvim.

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