Psicoterapia e ansiolíticos são os tratamentos mais comuns para a ansiedade. Mas, já imaginou um alimento comum em saladas que possa ter efeito ansiolítico? Um estudo desenvolvido na UFLA identificou que compostos presentes na alface lisa podem influenciar comportamentos relacionados à ansiedade do peixe-zebra (Danio rerio), um pequeno peixe amplamente empregado em pesquisas sobre o sistema nervoso.
O interesse da pesquisadora Alice Pereira Zanzini pelas plantas medicinais e por seu potencial na prevenção de doenças a levou a investigar, em sua tese de doutorado, as propriedades da alface (Lactuca sativa spp.) como possível agente ansiolítico.
“Eu percebi um aumento significativo de pessoas apresentando algum sintoma psiquiátrico, principalmente após o período da pandemia, e uma crescente procura por medicamentos convencionais para o tratamento desses sintomas. Foi então que surgiu a ideia de pesquisar extratos de plantas com ação ansiolítica, como a alface, no modelo experimental peixe-zebra.”, comentou.
De acordo com o estudo, as folhas da alface contêm diversos compostos bioativos, entre eles substâncias fenólicas e antioxidantes, que estudos anteriores associaram à redução do estresse oxidativo. Esse tipo de estresse também tem sido relacionado à ansiedade e depressão. Assim, a pesquisa analisou se compostos bioativos da alface podem reduzir o estresse oxidativo e se são capazes de interagir com receptores cerebrais envolvidos no controle da ansiedade.
O estudo utilizou 126 peixes-zebra adultos e os dividiu em diferentes grupos. Um deles não foi submetido ao estresse; outro recebeu diazepam (0,16 mg/L) antes do estresse; um terceiro passou apenas pelo estresse agudo. Os demais receberam extrato aquoso de alface em quatro concentrações crescentes (3, 6, 9 e 12 g/L), antes de serem submetidos ao estresse. O estresse foi induzido pela perseguição dos peixes com uma rede, forçando-os a mergulhar e, em seguida, a permanecer fora da água por um minuto, simulando uma situação de perigo agudo.
Após receberem os tratamentos, cada peixe foi solto em um aquário vertical de 2 litros por 8 minutos. Nesse tipo de teste, peixes sob maior efeito do estresse tendem a permanecer mais tempo no fundo do tanque. À medida que se adaptam ao novo ambiente, passam a explorar também a parte superior.
Os peixes que receberam a concentração de 9,0 g/L do extrato aquoso da alface foram os que passaram menos tempo no fundo do tanque em comparação aos demais grupos. Entre as concentrações testadas, essa foi a que apresentou o efeito mais evidente sobre o comportamento associado à ansiedade.
A concentração mais alta do extrato aquoso (12,0 g/L) teve efeito oposto: os peixes ficaram parados no fundo do aquário com comportamento indicativo de possível efeito sedativo. Os demais tratamentos, tanto as concentrações do extrato aquoso (3 e 6 g/L), quanto o diazepam não provocaram mudanças claras nos comportamentos dos peixes. 
De acordo com Alice, a pesquisa poderá servir como base para novos estudos sobre os compostos presentes na alface e seu possível uso no desenvolvimento de fitoterápicos com ação ansiolítica, embora o trabalho ainda seja uma triagem inicial do potencial do extrato da alface.
Os resultados, portanto, não significam que o consumo da alface tenha efeito no tratamento da ansiedade. O estudo foi realizado com extrato aquoso administrado a peixes e ainda são necessárias outras etapas de pesquisa antes de se discutir uma possível aplicação em seres humanos.
“Esses resultados são de testes em animais e são preliminares, a alface in natura não trata ansiedade clínica. Ainda assim, a minha pesquisa contribui para a base científica que investiga os compostos presentes na alface capazes de tratar o sistema nervoso.”, conclui.